terça-feira, 27 de maio de 2014

A MARCHA DA MACONHA

       No último domingo manifestantes pró-legalização da maconha foram às ruas. A discussão desse tema é válida desde que usados argumentos corretos. Há quem afirme o absurdo de que a maconha é natural e, portanto, não faz mal. Dizem também que é um santo remédio!  Se fosse assim, poderíamos experimentar também plantas como a cicuta, a “comigo-ninguém-pode”, a mandioca brava e cogumelos psicodélicos, todas naturais. 
        A maconha é uma droga mais leve,  porém está longe de ser  inofensiva.  Seu efeito deletério sobre a memória está comprovado, sobretudo quando o uso inicia-se na adolescência. Além disto, favorece o aparecimento e o agravamento de algumas doenças psiquiátricas. O cérebro do adolescente é especialmente vulnerável às drogas e propenso à dependência, inclusive ao álcool e à maconha. 
       Quanto ao uso medicinal, só irá usar maconha quem aceitar o ônus ou o bônus de ficar “chapado” como efeito colateral.  O turismo da maconha medicinal já é uma realidade nos estados americanos que a legalizaram para este fim. Parece-me estranho que Aspen, uma sofisticada estação de esqui, seja um dos destinos mais procurados pelos supostos  “doentes” que buscam a “cura pela erva”.   Os cientistas mais renomados são contra o uso da planta fumada, um composto de 460 substâncias, para fins medicinais.  Existem, no entanto, pesquisas promissoras utilizando-se apenas um de seus componentes, o Canabidiol, que quando isolado, deixa de ser maconha e passa a ser uma molécula como outra qualquer. Comprovada sua eficácia e segurança, a classe médica será favorável ao uso do canabidiol isolado como medicamento. 
        É correto afirmar que a legalização desvincularia a aquisição da maconha do ambiente do tráfico das drogas pesadas. O tráfico gera violência e criminalidade e é válido discutir se vale a pena combate-lo no caso de uma droga mais leve. No entanto, a exemplo do álcool, mesmo que a maconha só fosse liberada para maiores de 18 anos, como evitar que os adolescentes tenham acesso à droga? E quanto ao seu efeito entorpecente no trânsito?  No Brasil, não há como controlar. Portanto, entre prós e contras, sou contra. Já temos o álcool, uma droga recreativa lícita causadora de acidentes de transito e acessível aos adolescentes. Não precisamos de mais uma.  

Dra. Lucia Machado Haertel - Neurologista Infantil e da Adolescência 
Clínica Neurosaúde-Blumenau (47)33221522

Publicado no Jornal de Santa Catarina em 27/05/2014
 http://www.clicrbs.com.br/jsc/sc/impressa/4,182,4510530,24405
Publicado no jornal "O Tempo"de Belo horizonte em 09/06/2014 

domingo, 25 de maio de 2014

APNÉIA DO SONO NA INFÂNCIA




É comum ouvirmos falar sobre a apneia do sono em adultos. O que poucos sabem é que a Síndrome da Apnéia do Sono Obstrutiva, (SASO) é também comum na infância. A SASO infantil pode ocorrer em qualquer idade  sendo mais comum no pré escolar. Pode ser definida como: episódios repetitivos de interrupção total ou parcial do fluxo das vias aéreas superiores com manutenção do esforço respiratório.  É causada pela redução do calibre das vias aéreas. A fragmentação do sono e as alterações nas trocas gasosas podem causar prejuízos à saúde da criança.
A principal causa de obstrução anatômica é a hipertrofia das adenóides, seguida pelas alterações craniofaciais, particularmente a retromicrognatia e alterações do palato . A obstrucão é acentuada durante o sono devido ao relaxamento muscular.  No entanto, amígdalas e adenóides sozinhas nem sempre são capazes de causar SASO. Algumas crianças têm amígdalas e adenóides enormes sem SASO enquanto outras continuam tendo apnéia mesmo após retirá-las.  Não se pode, portanto, considerar apenas o seu tamanho para o diagnóstico de SASO. Além disto, algumas características da SASO na infância podem dificultar o diagnóstico.
No quadro clássico, observa-se ronco interrompido por pausas ou engasgos e associados a movimentos ou despertares. Entretanto alguns pacientes, especialmente lactentes ou aqueles com fraqueza muscular, podem não roncar. A história clínica também inclui sono inquieto, sudorese noturna , boca seca, cefaléia matinal, dormir em posições não usuais como sentadas ou com hiperextensão do pescoço, arritmias sinusais, enurese, respiração oral.  No entanto, o quadro clínico clássico não é a apresentação mais freqüente na infância. A Síndrome da Resistência das Vias Aéreas Superiores, (SRVA), e a Hipoventilação Obstrutiva Contínua são muito comuns. É necessário alertar para a existência destas formas mais leves de SASO, que tem como principal conseqüência distúrbios neurocomportamentais  e de aprendizagem e que são muito pouco diagnosticadas no nosso meio.
A SRVA é caracterizada por ronco contínuo e/ou respiração oral associados à repetidos microdespertares relacionados a esforço respiratório, sem apnéia, hipopneia ou dessaturação identificável, mas com aumento da pressão negativa esofageana. É comum a presença de respiração paradoxal. Está associada a significativo prejuízo cognitivo e comportamental em crianças, incluindo hiperatividade, déficit de atenção, dificuldades de aprendizagem irritabilidade e agressividade.  O ronco ocorre na maioria dos casos, mas existe a SRVA sem ronco. A Hipoventilação Obstrutiva consiste em longos períodos de obstrução parcial, acompanhada por alterações gasosas mas não de apnéias ou hipopnéias francas.  
O principal diagnóstico diferencial da SASO é o ronco primário que afeta 10% das crianças. Esta distinção não pode ser feita clinicamente, pela história, avaliação do ronco ou do tamanho das adenóides. As formas mais leves de SASO não são percebidas clinicamente porque não existe a apneia franca. Portanto, o ronco primário só pode ser distinguido da SASO pela polissonografia em clínica de sono, que é o exame de escolha para diagnóstico e avaliação de gravidade.
Diante destas características é fácil concluir que na maioria das vezes, apenas os casos mais graves com apneias evidentes são diagnosticados. O reconhecimento de prejuízos neurocognitivos  em crianças com formas mais leves tem feito os clínicos repensarem o limiar de distúrbio que requer intervenção.

CONSEQÜÊNCIAS
 As conseqüências da SASO, dependem da gravidade do quadro e vão desde os distúrbios neurocomportametais já descritos até hipertensão pulmonar e sistêmica e atraso de crescimento. A sonolência diurna, característica do adulto, é vista apenas em crianças maiores e adolescentes.
A hipoxemia representar risco potencial para o vulnerável cérebro em desenvolvimento. A hipertensão arterial sistêmica associada à SASO, comum na população adulta,  ocorre devido à ativação simpática intermitente durante os microdespertares. Na infância, devido a grande complacência vascular a elevação da PA não é tão proeminente mas pode contribuir para futura hipertensão no adulto.
Recentemente tem se dado maior ênfase às conseqüências comportamentais e cognitivas da SASO. Tem se verificado maior incidência de TDAH, (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), em crianças com SASO. Os sintomas são semelhantes ao quadro típico de TDAH. A história do sono deve ser sempre pesquisada nestes pacientes, principalmente se o caso não preenche completamente os critérios ou não houve resposta ao tratamento. Se existe relato de ronco está indicado realizar uma polissonografia.  Existem inúmeros relatos na literatura de melhora do desempenho, aprendizado e comportamento após o tratamento. O tratamento tardio pode resultar em déficits acumulados no aprendizado que necessitarão de apoio pedagógico.
A cada apnéia ou hipopnéia segue-se uma reação de despertar observada ao eletrencefalograma que não se torna consciente, mas que permite um aumento do tônus muscular necessário para permitir uma inspiração profunda que encerra a apnéia e normaliza a saturação de oxigênio. Nas formas mais graves podem ocorrer centenas de microdespertares e isto dificulta a passagem para o estágio mais profundo do sono, a fase IV, podendo afetar a secreção do hormônio de crescimento que ocorre nesta fase. O atraso de crescimento frequentemente observado tem múltiplas causas além da possível redução na secreção do GH.  A hipoxemia, acidose, aumento do esforço e do gasto energético da respiração são os principais fatores envolvidos. Além disto, perda de apetite devido à perda do olfato, disfagia e inapetência podem contribuir.

TRATAMENTO

     Um dos maiores dilemas na medicina do sono na infância é quando tratar o distúrbio respiratório. Não há duvidas quanto ao tratamento da SASO severa que pode levar a cor pulmonale e atraso no crescimento. Existe também consenso de que o ronco primário não deve ser tratado com cirurgia. O grupo com alterações polissonograficas discretas é o controverso e o limiar de distúrbio que deve ser tratado não está bem definido na literatura. A adenotonsilectomia é o tratamento de escolha na maioria dos casos e geralmente leva a cura.  Há recuperação da velocidade de crescimento, assim como das funções cognitivas e do comportamento após a cirurgia.  
Nos casos de SASO em que as amígdalas e adenóides são pequenas porém existem outros fatores como dismorfismos faciais, Síndrome de Down e Paralisia Cerebral associados, a cirurgia deve ser considerada. Levando em consideração que a SASO resulta de fatores anatômicos e funcionais, aumentar a via aérea o máximo possível é sempre desejável nestes casos. Porém, uma reavaliação posterior será necessária para verificar a necessidade de tratamento suplementar.   Algumas alterações do palato e da ardada dentária podem causar SASO e podem ser tratadas com aparelhos ortodonticos.            Nos pacientes que não melhoram ou quando a adenotonsilectomia é contra indicada, o CPAP passa a ser uma  opção. Cirurgias craniofaciais são indicadas em casos específicos assim como perda de peso.  
   Alguns pacientes continuam a roncar e ter apneias após a cirurgia. Nestes casos, a hipertrofia  adenoamigdaliana pode ser apenas um fator exacerbador em pacientes que tem alguma outra anomalia estrutural ou funcional. Uma nova polissonografia deverá ser solicitada após 8 semanas de pós operatório. 

CASO CLÍNICO

   Criança de 9 anos, sexo masculino, realizou adenoamigdalectomia aos 4 anos e referia ausência de ronco desde então. Foi à consulta devido à dificuldade de aprendizado significativa, necessidade de acompanhamento psicopedagógico, apatia sinais compatíveis com déficit de atenção sem hiperatividade. Foi iniciado tratamento com metilfenidato com pouca resposta. A anamnese do sono evidenciou sonolência diurna, ausência de ronco, sono perturbado, inquieto, presença de despertares e a opção da própria criança de dormir com dois travesseiros. Ao exame clínico evidenciou-se micrognatia. A polissonografia, (abaixo), evidenciou índice de 12 apnéias/hipopnéias por hora, 20 microdespertares por hora, saturação mínima de 85% e redução na proporção das fases IV e REM do sono. O quadro foi considerado grave pelos parâmetros polissonográficos infantis. Foi indicado o uso do CPAP até que se estudasse melhor a possibilidade de cirurgia bucomaxilofacial .

Fig.1: Amostra da polissonografia do paciente acima evidenciando apnéia, hipopnéia, dessaturação e microdespertar com ativação simpática intermitente demonstrada através do aumento da freqüência cardíaca.

www.neurosaude.com.br – Setor de distúrbios de sono- (47) 3322-1522 - Blumenau

terça-feira, 29 de abril de 2014

A importância do sono

A importância do sono fica evidente quando entendemos a complexidade dos sistemas cerebrais envolvidos na regulação do ciclo sono e vigília. Ao contrário do que se imagina, durante o sono cérebro não está inativo, apenas fecha as portas de entrada aos estímulos do ambiente exterior, fazendo apenas expediente interno! Existe atividade cerebral em todas as fases do sono especialmente durante o sono REM. Nesta fase ocorrem os sonhos e cérebro está tão ativo quanto em vigília.
Experiências extremas em que animais de laboratório foram impedidos de dormir por vários dias seguidos resultaram na morte do animal em algumas semanas devido a um descontrole metabólico, aumento incontrolável da temperatura corporal, caquexia e queda da imunidade. Questionáveis pela crueldade, tais experimentos provaram que o sono é fundamental para a vida. 
O sono tem uma função reparadora para o corpo e para o cérebro. Ocorre redução da pressão arterial, diminuição dos batimentos cardíacos, relaxamento muscular, redução da produção de urina, ou seja, os vários sistemas descansam durante o sono.
 Alguns hormônios são secretados durante o sono. O mais conhecido é o hormônio de crescimento que é secretado na fase IV.  Já o cortisol, hormônio relacionado ao stress tem seu nível reduzido durante o sono. Varias outras substâncias e hormônios tem sua secreção relacionada ao ciclo sono-vigília como a insulina e os hormônios tireoideanos. Isto é importante para o bom funcionamento e equilíbrio energético do organismo.   O sono também é importante para manter a capacidade do cérebro de controlar a temperatura corporal, a termorregulação.
            Durante o sono REM ocorre intensa atividade cerebral e acredita-se que nesta fase há a consolidação do que foi  aprendido durante o dia. É como se o aprendizado ocorresse em duas fases, a primeira durante o dia com o estudo e a segunda durante a noite quando são consolidadas. Mas para isto acontecer é necessário uma noite inteira de sono com todas as suas fases. O sono REM predomina na segunda metade da noite, portanto dormir menos numa véspera de prova vai comprometer a consolidação  do que foi estudado durante o dia. Passar a noite em claro ou acordar de madrugada para estudar em cima da hora também não é uma boa idéia.  Durante o sono alguns neurotransmissores  importantes para o estado de alerta e atenção , como a noradrenalina, encontram-se inibidos. Isto é importante para restabelecer seus níveis e garantir uma maior eficiência destas funções cerebrais no dia seguinte. Assim, dormir bem é fundamental para o aprendizado.

Matéria publicada na revista UNIMED Edição 73 http://www.mundieditora.com.br/i/190179/23
·         Leia também o artigo “o sono da beleza” neste blog.

O sono de má qualidade e suas consequências
A perda eventual de uma noite de sono tem como consequência apenas a perda de produtividade no dia seguinte devido à falta de atenção, sensação de cansaço e sonolência. O organismo consegue compensar na noite seguinte.
O sono de má qualidade ou a privação de sono de forma crônica pode, entretanto causar prejuízos ao organismo. O cortisol um hormônio que é liberado em vigília precisa ter seus níveis reduzidos durante o sono. A privação crônica de sono altera o controle dos níveis de cortisol. O cortisol em excesso leva a queda de imunidade, morte neuronal e redução da neurogenese no hipocampo, o responsável pela aquisição de novas memórias.  Altera também a resposta do organismo ao stress, causa morte celular e envelhecimento precoce.
Quem não dorme bem também tem maior tendência a obesidade. Durante o sono os níveis de leptina, hormônio que inibe o apetite aumenta. O nível de grelina e insulina diminuem porque as necessidades energéticas diminuem. Dormir pouco ou dormir mal altera a regulação destes hormônios levando ao aumento de ingestão de alimentos e alteração do metabolismo energético favorecendo o acumulo de gordura.
A sonolência excessiva diurna é o principal sintoma nos casos dos distúrbios intrínsecos do sono que levam ao sono não reparador. O mais comum e mais grave é a Síndrome da apnéia do sono obstrutiva*. Nestes casos a presença de ronco dá o alerta e a investigação é feita através da polissonografia. .


Suite para a realização de polissonografia. 
Clínica Neurosaúde Blumenau- Setor de Distúrbios do sono. Fone (47) 3322-1522   

 * Aguardem a postagem do artigo: “Apneia do sono”, neste blog

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Autismo e Asperger - Diagnósticos mais claros

 Considerado, de forma geral, um distúrbio de desenvolvimento causado por condições genéticas, o autismo tem como característica fundamental o prejuízo na comunicação social e a presença de comportamentos peculiares. Alguns sinais como a dificuldade de contato ocular podem ser percebidos desde os primeiros meses de vida. 
A neurologista infantil Lúcia Machado Haertel explica que crianças com, aproximadamente, um ano e meio de idade ainda não têm a comunicação verbal totalmente desenvolvida. Por isso, nessa idade, deve existir uma comunicação não verbal bastante rica, com manifestações das emoções através de mimicas, gestos e expressões faciais diversas. “Entre um e dois anos, a criança observa muito as expressões faciais da mãe. A falta dessa interação é um sinal de alerta precoce para o diagnóstico do autismo. Ao longo dos próximos meses, o quadro vai se definindo melhor. Outros sinais na criança são a falta de comportamentos de imitação, de apontar, mostrar e trazer objetos de interesse para compartilhar”, diz a neuropediatra.
Geralmente, há uma falta de interesse por pessoas, não havendo uma reciprocidade social. A ausência ou dificuldade na comunicação social priva a criança de estímulos adequados para o desenvolvimento. Por isso, é muito importante o diagnóstico e a intervenção precoces. Mesmo não existindo uma cura, muitos dos sintomas podem ser amenizados com terapias de estimulação. Os autistas mais graves podem não desenvolver a linguagem verbal e apresentar grandes limitações necessitando de suporte significativo ao longo de toda a vida.  Outros com formas leves, bom  nível intelectual e de linguagem podem achar um nicho que se adapte a suas habilidades e interesses especiais e, assim, viver e trabalhar de forma independente. Mas permanecem socialmente  vulneráveis, com dificuldades para lidar com as demandas diárias sem ajuda”, salienta Dra. Lúcia.
Critérios para diagnóstico do Autismo
As limitações e prognóstico estão relacionados com o nível de gravidade  do transtorno. Têm melhor prognóstico aqueles que não apresentam comprometimento intelectual e conseguem desenvolver uma linguagem funcional até os cinco anos. O diagnóstico é feito clinicamente.  Os critérios mais aceitos mundialmente estão  no Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - DSM), publicado pela Academia Americana de Psiquiatria. 
 Síndrome de Asperger
Há um ano o DSM passou por uma revisão que aboliu a Síndrome de Asperger como diagnóstico. Na atual classificação do DSM 5, só existe o Transtorno do Espectro Autista dividido em três níveis de gravidade.  “As características básicas continuam as mesmas nos três níveis, mas variam na intensidade justificando a denominação de Espectro Autista ”, explica a neurologista.
 Dra Lucia explica que, desde 1994, com a inclusão no DSM-4, a Síndrome de Asperger vem causando controvérsias. O único critério que a diferenciava do autismo leve era que, na síndrome de Asperger, não poderia haver atraso no desenvolvimento da linguagem.  Os critérios antigos davam margem a interpretações pessoais principalmente por não especialistas. Isso, associado à popularização e utilização indiscriminada do DSM como se fosse um manual de instruções, causou uma ‘epidemia’ mundial da Síndrome de Asperger.  Assim, com as mudanças atuais no DSM 5 haverão diagnósticos mais precisos. “Os pacientes anteriormente diagnosticados com Síndrome de Asperger deverão ser reavaliados e, se preencherem os novos critérios, serão considerados autistas. Se não preencherem, deverão ser avaliadas outras possibilidades de diagnóstico diferencial. Com critérios mais bem definidos,  parte dos pacientes não poderão ser considerados autistas”, afirma a neurologista.
Afinal, crianças podem ter dificuldades de socialização também por timidez, fobia social, imaturidade no desenvolvimento, deficiência intelectual, falta de limites, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, transtorno desafiador opositivo, entre outros. Outro fato que costuma ser indevidamente avaliado é a presença de padrões repetitivos de comportamento e interesse.
“Pré-escolares normais apresentam fases em que preferem um tipo de brinquedo, querem ver o mesmo filme ou escutar  a mesma historia várias vezes e isso isoladamente não é diagnóstico de autismo. Afinal que menino normal nunca teve uma fase de paixão por dinossauros? A repetição faz parte do aprendizado infantil. Para a suspeita de autismo os padrões de interesses restritos devem  intensos e anormais em relação aos padrões habituais da idade, como, por exemplo, uma criança que passa horas enfileirando carrinhos sem brincar com eles ou um menino de  5 anos que se comunica mal mas já memorizou todas as marcas de carro e só quer desenhar placas de transito.”, explica. O diagnóstico correto é importante para que haja uma intervenção adequada.
Versão resumida publicada na revista UNIMED de Blumenau, edição 79.
http://www.mundieditora.com.br/h/i/8512443-unimed-79-digital
 Mais informações:  Dra. Lúcia Machado Haertel
Neurologia Infantil – CRM 6338   (47) 3322-1522



sexta-feira, 4 de abril de 2014

E aquela história dos 10% do cérebro?



                Será que usamos mesmo apenas 10% do nosso cérebro? 
                Em relação a esta frase, a única coisa que a ciência não consegue explicar é como este mito surgiu. Afinal, a afirmação não faz nenhum sentido. A natureza não passaria centenas de milhares de anos aperfeiçoando sua obra prima, desenvolvendo um cérebro com 86 bilhões de neurônios para depois usar só 10%.


Originar neurônios a partir de células-tronco até eles estarem armazenando informações é um processo muito complexo. Neurônios custam muito caro! Nossas trilhões de sinapses são oriundas da síntese de proteínas, e a bainha de mielina, material isolante que possibilita a condução do impulso elétrico pelo axônio, é constituída por lipídeos. Há milhares de anos, nutrientes nobres como proteínas e lipídeos não podiam ser encontrados em supermercados!  Evolutivamente, desperdiçar matéria prima para formar e manter tantos neurônios inúteis não faria sentido algum. Desperdício é coisa do homem moderno, e neste ponto, ter um supercérebro não vem ajudando muito! Além disso, neurônios são nobres e vivem na mordomia, cercados pelas células da glia, suas assistentes pessoais. Sua função é alimentar, proteger e desintoxicar nossos neurônios fazendo hora extra e adicional noturno na adolescência! Manter tantos colaboradores também é biologicamente caro. Com apenas 2% do peso corporal, o cérebro consome 20% da energia do organismo.
                 Alguns afirmam que os 90% serviriam de reserva para recuperar lesões. Isso seria ótimo! Mas, infelizmente, nosso cérebro foi moldado na pré-história e antes do advento da medicina, a seleção natural era cruel. Só os mais fortes sobreviviam, e a expectativa de vida era extremamente curta. Ter reserva não faria sentido! Portanto, querido adolescente, se você beber, bater o carro e sofrer uma lesão cerebral poderá até se recuperar, mas não à custa dos 90% da dita reserva e sim do trabalho dobrado dos neurônios que sobraram! Neurônios não se regeneram. Pensem nisso e cuidem bem dos seus!
                A ciência já provou que neurônios inativos morrem. Portanto, não existem neurônios inativos e nós usamos sempre 100% do nosso cérebro. Ponto final. Mesmo no cérebro infantil, o qual possui um maior número de neurônios, eles estão todos ativos e formando circuitos, ainda que mais básicos. Com a idade, vai ocorrendo uma seleção dos circuitos mais úteis e eficientes, e neurônios não utilizados sofrem um processo de morte natural programada.
Usamos sempre todo o potencial do nosso cérebro para determinada atividade. O que pode variar é a eficiência. Esta variação pode ser significativa de um dia para o outro, dependendo dos nossos chamados “sistemas modulatórios de projeção difusa”, os quais “temperam” aqui e ali o nosso cérebro com neurotransmissores como a noradrenalina, a dopamina e a serotonina entre outros. Tais “temperinhos” regulam nosso estado de alerta, de atenção, de motivação e de humor, influenciando significativamente o nosso desempenho e nossa memória a cada momento. Todos sabem como é difícil ler um texto quando estamos sonolentos, desatentos, desanimados ou de mau humor!
                Mas se já usamos 100% do cérebro, como podemos aprender coisas novas e melhorar nossas habilidades?
A capacidade de aprender é ilimitada. Você pode aprender qualquer coisa - desde que haja dedicação. A base do aprendizado é a formação de novas conexões sinápticas, o fortalecimento das já existentes e a formação de novas associações entre neurônios, criando circuitos mais complexos. Não ocorre através do recrutamento de neurônios que estavam à toa! Na verdade um aprendizado quando bem consolidado, exigirá menor número de neurônios para mantê-lo.
               
                A história dos 10% é tão difundida que existem livros de autoajuda ensinando como usar os outros 90%! É a “neuróbica”, a malhação do cérebro. Malhar o cérebro é aconselhável, desde que com atividades que estimulem a memória, a atenção, o raciocínio, a imaginação; ou seja, que resultem na formação de sinapses úteis. O sistema nervoso é plástico. Se for estimulado, aumenta seu o potencial. Mesmo com toda a tecnologia existente no século XXI, o melhor estimulante para o cérebro ainda é uma boa leitura. A atividade física regular também é eficiente, uma vez que libera neurotransmissores que melhoram o funcionamento geral do cérebro e da memória.

Mas cuidado com a "neuróbica" que propõe exercícios esdrúxulos como andar pela casa de olhos fechados, ler de cabeça para baixo, comer chucrute com melancia, usar a mão esquerda para escovar os dentes ou fazer outras coisas estranhas com o objetivo de estimular neurônios inativos do cérebro. Isto não faz sentido! Mesmo nos casos de reabilitação após uma lesão cerebral,  a melhora ocorrerá basicamente pela formação de novas sinapses e circuitos.   

                Fiz meu próprio experimento científico no  meu clube. Após uma grave lesão jogando tênis, fiquei três meses com o braço direito completamente imobilizado. Usar apenas a mão esquerda durante três meses provocou, de fato, algumas alterações temporárias no meu cérebro, mas apenas nas áreas que regulam o meu estado de humor. Que coisa mais chata! Infelizmente, não fiquei nem um pouco mais inteligente por isso...

Publicado na revista Tie Break. Blumenau-SC

quinta-feira, 13 de março de 2014

O cérebro de Einstein





Sempre achei que alguma coisa no cérebro de alguns alunos, daqueles que prestavam vestibular para o ITA, era diferente. Esta diferença cerebral parecia separar minha turma do terceirão em dois grupos: Os que gostavam de matemática e os que gostavam do resto! Eu, claro, fazia parte do segundo grupo.  
Afinal, o que há de diferente no cérebro dos grandes matemáticos? Tal curiosidade fez com que o cérebro de Einstein fosse retirado e estudado logo após a sua morte, em 1955.
Os primeiros estudos do cérebro de Einstein foram decepcionantes: ele era menor do que a média masculina. Pesava 1230 gramas aos 76 anos, o que corresponderia a um cérebro de 1352 na adolescência. Nada excepcional. É o tamanho médio de um cérebro feminino. Assim, temos nossa primeira conclusão: tamanho não é documento! O fator determinante de sua inteligência não era um maior número de neurônios. Foi observado que o lóbulo parietal superior direito, área cerebral relacionada ao pensamento matemático e habilidades espaço-visuais, era mais desenvolvido do que a média, contando com conexões mais numerosas e mais complexas entre seus neurônios.  Isso explicava suas habilidades matemáticas superiores. Nesta área os homens costumam, realmente, ser melhores do que as mulheres. Mas se fosse apenas isto Einstein poderia ter passado a vida toda fazendo contas sem descobrir nada novo.


No entanto, Einstein não era apenas um gênio da matemática. Sua inteligência era excepcional em termos globais, fato este, não explicado até recentemente. Um novo estudo do seu cérebro* evidenciou que outra área cerebral, o giro frontal médio, era extraordinariamente mais desenvolvida do que a média. Esta área é responsável pelas funções mais complexas da mente humana: Atenção, organização de informações, planejamento diante de um objetivo, resolução de problemas, pensamentos complexos e abstratos, entre outros. Possibilita também outra importante habilidade: a de imaginar eventos e prever suas possíveis consequências. Isso sim explica muita coisa! Bem mais do que uma habilidade superior na matemática. Esta área nos permite experimentar mentalmente. Para um cientista, independente da área de atuação, a intuição e a imaginação são tão importantes quanto o estudo. Estas habilidades nos permitem criar ideias novas apoiando-se em conhecimentos prévios dentro de certa lógica. Possibilita vivenciar mentalmente experimentos impossíveis de serem vividos na prática. Einstein imaginava-se apostando corrida com um raio de luz ou acelerando-se dentro de um elevador em direção ao espaço. Assim criava suas teorias, muitas só comprovadas anos depois. 
Foi considerado o maior físico teórico de todos os tempos. Ganhador do prêmio Nobel, seu trabalho mudou as ideias vigentes sobre espaço, tempo e matéria.  
Vocês sabiam que o cérebro masculino pesa, em média, 1,5 kg, enquanto o feminino, 1,3kg?  Sim, o cérebro do homem é maior do que o da mulher, tendo, em média, 15% de neurônios a mais. Nem pensem que isto seja uma prova de que homens são mais inteligentes do que mulheres. O cérebro de Einstein demonstrou que a inteligência não depende do tamanho do cérebro e de um maior número de neurônios. O importante é onde estão localizados e a complexidade das conexões entre eles, propiciando uma maior eficiência do trabalho mental. Em termos de inteligência global não há diferenças entre homens e mulheres. Einstein viveu numa época em que as mulheres não tinham as mesmas oportunidades e a ciência era dominada por homens. Com direitos igualitários, a mulher passou a conquistar espaço em todas as áreas, demonstrando que cérebros excepcionais como o de Einstein existem independentemente do gênero do portador.
Mas então para que servem estes 15% de neurônios a mais da maioria dos homens?
Na verdade, tal excesso é proporcional à maior massa corporal do homem, e está localizado nas áreas motoras. Com tantos músculos, é necessário um número maior de neurônios para comandá-los, melhorando assim a eficiência do trabalho braçal! Realmente, os homens são melhores do que nós em rachar lenha, quebrar pedras, empurrar móveis, correr atrás de baratas e carregar nossas sacolas de compras!
Amo muito a matemática cerebral!


Publicado no jornal "O Tempo"de Belo horizonte e na revista Tie Break de Blumenau
* dados científicos extraídos do artigo da revista Brain Journal of Neurology 2013:136;1304-1327  




terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

As Habênulas (II)

As habênulas  são o centro de um sistema considerado antagônico ao  sistema de recompensa do cérebro. O sistema de recompensa é um conjunto de estruturas (sendo a principal os núcleos Accumbens) responsáveis  por premiar, através de sensações de  prazer, os comportamentos importantes para nossa sobrevivência (reprodução, saciar a fome e a sede) através da liberação do neurotransmissor dopamina.  Esta é também liberada em situações do dia a dia que causam emoções positivas, tais como vencer um desafio, estudar e tirar uma nota boa, encontrar os amigos, ganhar um presente ou simplesmente ver a felicidade de alguém amado. As nossas Habenulas são, por outro lado, o centro do sistema de punição ou de anti-recompensa do cérebro, o qual é ativado quando tomamos decisões erradas ou não atingimos um objetivo esperado. Esse processo é importante para que aprendamos com nossos erros, memorizando situações em que o resultado final não foi bom. Sua ativação não resulta, portanto, numa sensação agradável, mas sim em sentimentos negativos como frustração, angústia, e tristeza. Afinal, as habenulas fazem inúmeras conexões sinápticas com o  núcleo accumbens causando a inibição da liberação da dopamina.
                - Pera aí! Para tudo!!! Quer dizer que nosso cérebro tem todo um complexo sistema encarregado de jogar um balde de água fria na nossa felicidade e prazer, comandado pelas  minhas queridas  habênulas?
                - Sim! Exatamente.
                - Mas... Queremos nossa dopamina!!!
                - Minha filha,  você sabe que felicidade e prazer demais também fazem mal.
                - Sim. A hiperativação do sistema de recompensa ou a falta do efeito inibitório das habenulas, resultariam num quadro de felicidade constante e sem motivo.  Seria uma euforia exagerada, um estado de autoestima elevada demais conhecido como “mania”. Esse grave distúrbio psiquiátrico pode colocar o portador em risco, uma vez que ele acha que pode fazer tudo, não percebe as consequências de seus atos, não tem medo de nada e se acha a “a última bolacha do pacote”, apresenta comportamentos de risco e toma decisões financeiras desastrosas!
                É perigoso achar que a vida é só felicidade. Importante é perceber o lado positivo e negativo do nosso comportamento e avaliar suas consequências, aprendendo com elas. As áreas de recompensa do cérebro precisam de limites, neurologicamente falando, da modulação inibitória exercida pelas habênulas. 
Mas o oposto também ocorre. Está comprovado que a hiperativação das habênulas está envolvida nos quadros depressivos, pois causa um estado de humor inverso: angústia, tristeza, incapacidade de sentir prazer, felicidade e de enxergar o lado bom da vida. É como ver o mundo pelos 50 tons mais escuros.
                Como visto, as habênulas e suas interações com o núcleo accumbens atuam na regulação do nosso estado de humor. Quando bem equilibradas, fazem com que tenhamos variações entre tristeza e alegria com intensidade e duração proporcionais à realidade.
                - Então o grau de felicidade e tristeza de cada um depende apenas de uma guerra neuroquímica acirrada entre a habênula e o accumbens?
                  Bem, as coisas no cérebro não são assim tão simples... São trilhões de sinapses entre diversos sistemas antagônicos que fazem com que cada pessoa seja diferente da outra nos mais diversos aspectos da sua personalidade. Simplificadamente, entretanto, tais estruturas cerebrais atuam sim regulando os 50 tons de humor da massa cinzenta!