sexta-feira, 4 de abril de 2014

E aquela história dos 10% do cérebro?



                Será que usamos mesmo apenas 10% do nosso cérebro? 
                Em relação a esta frase, a única coisa que a ciência não consegue explicar é como este mito surgiu. Afinal, a afirmação não faz nenhum sentido. A natureza não passaria centenas de milhares de anos aperfeiçoando sua obra prima, desenvolvendo um cérebro com 86 bilhões de neurônios para depois usar só 10%.


Originar neurônios a partir de células-tronco até eles estarem armazenando informações é um processo muito complexo. Neurônios custam muito caro! Nossas trilhões de sinapses são oriundas da síntese de proteínas, e a bainha de mielina, material isolante que possibilita a condução do impulso elétrico pelo axônio, é constituída por lipídeos. Há milhares de anos, nutrientes nobres como proteínas e lipídeos não podiam ser encontrados em supermercados!  Evolutivamente, desperdiçar matéria prima para formar e manter tantos neurônios inúteis não faria sentido algum. Desperdício é coisa do homem moderno, e neste ponto, ter um supercérebro não vem ajudando muito! Além disso, neurônios são nobres e vivem na mordomia, cercados pelas células da glia, suas assistentes pessoais. Sua função é alimentar, proteger e desintoxicar nossos neurônios fazendo hora extra e adicional noturno na adolescência! Manter tantos colaboradores também é biologicamente caro. Com apenas 2% do peso corporal, o cérebro consome 20% da energia do organismo.
                 Alguns afirmam que os 90% serviriam de reserva para recuperar lesões. Isso seria ótimo! Mas, infelizmente, nosso cérebro foi moldado na pré-história e antes do advento da medicina, a seleção natural era cruel. Só os mais fortes sobreviviam, e a expectativa de vida era extremamente curta. Ter reserva não faria sentido! Portanto, querido adolescente, se você beber, bater o carro e sofrer uma lesão cerebral poderá até se recuperar, mas não à custa dos 90% da dita reserva e sim do trabalho dobrado dos neurônios que sobraram! Neurônios não se regeneram. Pensem nisso e cuidem bem dos seus!
                A ciência já provou que neurônios inativos morrem. Portanto, não existem neurônios inativos e nós usamos sempre 100% do nosso cérebro. Ponto final. Mesmo no cérebro infantil, o qual possui um maior número de neurônios, eles estão todos ativos e formando circuitos, ainda que mais básicos. Com a idade, vai ocorrendo uma seleção dos circuitos mais úteis e eficientes, e neurônios não utilizados sofrem um processo de morte natural programada.
Usamos sempre todo o potencial do nosso cérebro para determinada atividade. O que pode variar é a eficiência. Esta variação pode ser significativa de um dia para o outro, dependendo dos nossos chamados “sistemas modulatórios de projeção difusa”, os quais “temperam” aqui e ali o nosso cérebro com neurotransmissores como a noradrenalina, a dopamina e a serotonina entre outros. Tais “temperinhos” regulam nosso estado de alerta, de atenção, de motivação e de humor, influenciando significativamente o nosso desempenho e nossa memória a cada momento. Todos sabem como é difícil ler um texto quando estamos sonolentos, desatentos, desanimados ou de mau humor!
                Mas se já usamos 100% do cérebro, como podemos aprender coisas novas e melhorar nossas habilidades?
A capacidade de aprender é ilimitada. Você pode aprender qualquer coisa - desde que haja dedicação. A base do aprendizado é a formação de novas conexões sinápticas, o fortalecimento das já existentes e a formação de novas associações entre neurônios, criando circuitos mais complexos. Não ocorre através do recrutamento de neurônios que estavam à toa! Na verdade um aprendizado quando bem consolidado, exigirá menor número de neurônios para mantê-lo.
               
                A história dos 10% é tão difundida que existem livros de autoajuda ensinando como usar os outros 90%! É a “neuróbica”, a malhação do cérebro. Malhar o cérebro é aconselhável, desde que com atividades que estimulem a memória, a atenção, o raciocínio, a imaginação; ou seja, que resultem na formação de sinapses úteis. O sistema nervoso é plástico. Se for estimulado, aumenta seu o potencial. Mesmo com toda a tecnologia existente no século XXI, o melhor estimulante para o cérebro ainda é uma boa leitura. A atividade física regular também é eficiente, uma vez que libera neurotransmissores que melhoram o funcionamento geral do cérebro e da memória.

Mas cuidado com a "neuróbica" que propõe exercícios esdrúxulos como andar pela casa de olhos fechados, ler de cabeça para baixo, comer chucrute com melancia, usar a mão esquerda para escovar os dentes ou fazer outras coisas estranhas com o objetivo de estimular neurônios inativos do cérebro. Isto não faz sentido! Mesmo nos casos de reabilitação após uma lesão cerebral,  a melhora ocorrerá basicamente pela formação de novas sinapses e circuitos.   

                Fiz meu próprio experimento científico no  meu clube. Após uma grave lesão jogando tênis, fiquei três meses com o braço direito completamente imobilizado. Usar apenas a mão esquerda durante três meses provocou, de fato, algumas alterações temporárias no meu cérebro, mas apenas nas áreas que regulam o meu estado de humor. Que coisa mais chata! Infelizmente, não fiquei nem um pouco mais inteligente por isso...

Publicado na revista Tie Break. Blumenau-SC

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