quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Volta às aulas!

                 Por Dra. Lucia Machado Haertel
Mais um ano letivo se inicia e com ele, volta também o esforço diário para fazer os pequenos estudarem. Nesse contexto, qual seria a melhor forma de ajudar nossos filhos a recolocarem  os neurônios pra funcionar?

Não espere ler aqui alguma dica milagrosa do tipo “Como turbinar a memória em 10 passos”, coisa que certos cursos de autoajuda prometem. Não se iluda - nosso cérebro não faz milagres. Aprender exigirá esforço e dedicação. A ideia aqui é apresentar algumas dicas realistas para fazer de 2016 um ano de muito aprendizado.

O cérebro não é como um computador que grava tudo. Ele próprio faz uma seleção – a qual, às vezes, é aleatória. Isso explica porque decoramos coisas inúteis como aquela música chata que insiste em tocar em nossas cabeças e não conseguíamos decorar os gases nobres na escola. O que podemos fazer é direcionar essa seleção através do estudo eficiente. Para isto lembrem-se de duas palavras chave: motivação e atenção.

A memorização é um dos temas mais complexos da neurociência, e a atenção é fundamental para ela ocorra. Tanto que, por mais que os adolescentes insistam que conseguem estudar com a TV ligada, a neurociência já provou que não - o cérebro não é capaz de compartilhar a atenção e processar mais de um estímulo ao mesmo tempo. O que for memorizado desta forma tende a ser rapidamente esquecido. Outro erro comum é se deixar enganar pela memória de curta duração, que mantém o assunto recém-estudado em mente por algumas horas, dando aquela falsa sensação de “já estudei o suficiente, deixa eu jogar, mãe!”. Porém, a memória de longa duração é altamente dependente da atenção e é consolidada durante o sono. Se você costuma cair nestas pegadinhas cerebrais, não se surpreenda se “der um branco” na hora da prova. Não é “branco”, na verdade você não aprendeu! Sem atenção não há retenção. Se você estudar apenas na véspera poderá descobrir que esqueceu tudo justo na hora da prova.

As emoções positivas, como felicidade e prazer, são facilitadoras da memória e geram motivação através da ativação do sistema de recompensa do cérebro. Isso é importante principalmente para os mais novos, os quais não tem maturidade suficiente para entender que estudar é importante para o futuro profissional. Eles só conseguem pensar que: estudar é legal ou estudar é chato. Fim. Caso a segunda opção prevaleça, vão se recusar a aprender. Portanto, os pais e professores devem tornar o momento do estudo agradável desde cedo para que as crianças criem um vínculo positivo com a aprendizagem. Crianças não aprendem sob pressão. Por isso, tenha paciência, mostre alegria e criatividade para que a hora da tarefa não seja uma tortura para ambos!

Ter motivação é essencial, e como visto, ela está intimamente relacionada ao prazer. Você já percebeu que aprendemos melhor aquilo que gostamos? Acreditar na possibilidade de um resultado positivo  também também ativa o sistema de recompensa do cérebro e nos dá motivação para correr atrás de um objetivo. Daí a necessidade de se ter um objetivo, de se impor desafios e acreditar em si mesmo.

O cérebro humano é especialista na resolução de problemas e desafios. Estabeleça um objetivo e todo o seu cérebro trabalhará para alcançá-lo. Basta vencer a inércia, o que é especialmente difícil nesta época. O objetivo deve ser viável, pois a sensação de falhar logo de início pode minar a autoconfiança de qualquer um, levando à desmotivação e desistência.

Na adolescência, o cérebro atinge o auge de suas habilidades cognitivas. Entretanto, outras habilidades, também crescem nessa idade. Isto sem falar na concorrência desleal da TAM: Tecnologias de Alta Motivação: iPhones, iPads, Face, Instagram, Twitter, etc .

     
  Manter a motivação e o foco com tanta concorrência é o maior desafio na adolescência. Assim, mesmo possuindo uma potente máquina de aprender, as notas podem não decolar!   A motivação  facilita a atenção e associada à um bom planejamento diário de estudos fará  você manter a adolescência e as notas em alta. Resta agora saber estudar. 

A memória exige formação de novas sinapses, e se formá-las já não é fácil, imagine mantê-las! Assim, existem dois tipos de estudo: O para fazer prova e o para realmente aprender. Decorar o resumo do resumo do colega na véspera da prova pode até garantir nota suficiente pra passar de ano (nem que seja com recuperações e conselho de classe), mas alguns dias depois, tudo será esquecido.  Para que uma ampla rede de sinapses seja formada e fortalecida, é necessário estudar a matéria inteira, compreendendo e elaborando o assunto, fazendo associações com os conhecimentos já previamente armazenados. Tenha contato com o assunto diversas vezes e por meios diferentes, textos, filmes, figuras, debates, músicas...  A repetição é necessária para “colar” a matéria no cérebro. Prestar atenção na aula, ler o assunto no mesmo dia em casa e estudar alguns dias antes da prova é a maneira mais eficiente. Depois de tudo isto seu próprio cérebro estará apto a elaborar um resumo para ser revisado na véspera. Imagine-se subindo uma pirâmide em que cada degrau apoia-se no anterior. Quando chegar ao topo, haverá uma base sólida de conhecimentos para apoiá-lo. Mas se tentar chegar lá em cima em um único salto, você não irá conseguir. Não dá para fazer o cérebro pegar no tranco no último bimestre.


E assim, desejo a todos os estudantes um excelente e produtivo 2016, com muitos e sólidos degraus percorridos com sucesso. E lembrem-se do lema: não deixem para estudar amanhã o que vocês podem estudar hoje!

Mais algumas dicas para organizar seu tempo e vencer as tentações:

1.       Faça um bom planejamento nos primeiros dias de aula com horários fixos para o estudo e tarefas escolares de acordo com as suas atividades extra classe e calendário de provas. 
2.    Esses horários devem ser diários fixos e exclusivos. Para uma boa memorização elimine qualquer distração. Em épocas de provas ou de acordo com seu rendimento poderá haver necessidade de aumento.
3.   Desligue todos os aparelhos eletrônicos e desconecte-se completamente da internet e das redes sociais. Senão, a tentação será grande e interrupções frequentes interferem na concentração e na eficiência do estudo. No final você vai estar com aquela sensação de que o dia terminou e não rendeu nada.
4.   Estabeleça objetivos para aquele dia de estudos, por exemplo: Fazer a tarefa, ler o que foi dado em aula para entender e fixar melhor o conteúdo dado naquele dia e estudar algo referente à próxima prova.
5.   Ao elaborar um resumo cuide para não ficar apenas copiando o livro encolhendo a matéria! Para ser útil , um resumo deve ser feito pelo seu próprio cérebro após a compreensão e elaboração do assunto, ou seja, ao final do estudo com as informações já processadas e usando o livro apenas como apoio. 
6.   A atividade mental também passa por um processo de saturação. Isto é percebido como cansaço e falta de atenção o longo do dia. Portanto aproveite o pique inicial e inicie pela atividade mais difícil e que exigirá maior energia e atenção. Você pode fazer um breve intervalo de 5 a 10 minutos entre as atividades. Mas faça este intervalo apenas após concluir alguma meta. Senão haverá uma tendência natural à enrolação até a hora do intervalo.
7.   Não passe para outra atividade antes de concluir a anterior ou você correrá o risco de iniciar várias coisas e não concluir nenhuma.
8.   Estabeleça horários fixos também para o uso da internet preferencialmente após o horário de estudo. Assim você poderá aproveitar melhor o lazer sem dor na consciência e com a sensação de dever cumprido.   
9.   Reserve também horários para atividades físicas e leitura. Ler ainda é o melhor estimulante para o cérebro.
10.   Durma bem! O ideal na adolescência são 9 horas por noite e não menos do que 8.  O sono é importante para o aprendizado e para que você mantenha a concentração no dia seguinte. O único sono permitido à tarde nesta idade é um cochilo de 30 minutos após o almoço. Mais do que isto indica que você não dormiu o suficiente à noite e está tentando compensar. Quanto mais tempo você dormir, mais difícil será de acordar. Lembrem-se o sono diurno não substitui o sono noturno!
11. Não faça tarefas escolares apenas pra cumprir tabela. Use a tarefa como parte do estudo e não passe adiante sem compreender alguma coisa. Peça ajuda se tiver dúvidas.
12. O aprendizado é progressivo. Conhecimentos mais elaborados vão sendo acrescentados aos conhecimentos básicos previamente aprendidos. É muito difícil armazenar uma nova informação sem uma base sólida que permita compreende-la. O tempo passa e a fila ( de matéria )anda. Não enrole para engrenar e não  deixe a matéria acumular. É muito difícil pegar o bonde andando!

Aos vestibulandos deste ano: Estudem, acreditem e boa sorte!

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