terça-feira, 29 de abril de 2014

A importância do sono

A importância do sono fica evidente quando entendemos a complexidade dos sistemas cerebrais envolvidos na regulação do ciclo sono e vigília. Ao contrário do que se imagina, durante o sono cérebro não está inativo, apenas fecha as portas de entrada aos estímulos do ambiente exterior, fazendo apenas expediente interno! Existe atividade cerebral em todas as fases do sono especialmente durante o sono REM. Nesta fase ocorrem os sonhos e cérebro está tão ativo quanto em vigília.
Experiências extremas em que animais de laboratório foram impedidos de dormir por vários dias seguidos resultaram na morte do animal em algumas semanas devido a um descontrole metabólico, aumento incontrolável da temperatura corporal, caquexia e queda da imunidade. Questionáveis pela crueldade, tais experimentos provaram que o sono é fundamental para a vida. 
O sono tem uma função reparadora para o corpo e para o cérebro. Ocorre redução da pressão arterial, diminuição dos batimentos cardíacos, relaxamento muscular, redução da produção de urina, ou seja, os vários sistemas descansam durante o sono.
 Alguns hormônios são secretados durante o sono. O mais conhecido é o hormônio de crescimento que é secretado na fase IV.  Já o cortisol, hormônio relacionado ao stress tem seu nível reduzido durante o sono. Varias outras substâncias e hormônios tem sua secreção relacionada ao ciclo sono-vigília como a insulina e os hormônios tireoideanos. Isto é importante para o bom funcionamento e equilíbrio energético do organismo.   O sono também é importante para manter a capacidade do cérebro de controlar a temperatura corporal, a termorregulação.
            Durante o sono REM ocorre intensa atividade cerebral e acredita-se que nesta fase há a consolidação do que foi  aprendido durante o dia. É como se o aprendizado ocorresse em duas fases, a primeira durante o dia com o estudo e a segunda durante a noite quando são consolidadas. Mas para isto acontecer é necessário uma noite inteira de sono com todas as suas fases. O sono REM predomina na segunda metade da noite, portanto dormir menos numa véspera de prova vai comprometer a consolidação  do que foi estudado durante o dia. Passar a noite em claro ou acordar de madrugada para estudar em cima da hora também não é uma boa idéia.  Durante o sono alguns neurotransmissores  importantes para o estado de alerta e atenção , como a noradrenalina, encontram-se inibidos. Isto é importante para restabelecer seus níveis e garantir uma maior eficiência destas funções cerebrais no dia seguinte. Assim, dormir bem é fundamental para o aprendizado.

Matéria publicada na revista UNIMED Edição 73 http://www.mundieditora.com.br/i/190179/23
·         Leia também o artigo “o sono da beleza” neste blog.

O sono de má qualidade e suas consequências
A perda eventual de uma noite de sono tem como consequência apenas a perda de produtividade no dia seguinte devido à falta de atenção, sensação de cansaço e sonolência. O organismo consegue compensar na noite seguinte.
O sono de má qualidade ou a privação de sono de forma crônica pode, entretanto causar prejuízos ao organismo. O cortisol um hormônio que é liberado em vigília precisa ter seus níveis reduzidos durante o sono. A privação crônica de sono altera o controle dos níveis de cortisol. O cortisol em excesso leva a queda de imunidade, morte neuronal e redução da neurogenese no hipocampo, o responsável pela aquisição de novas memórias.  Altera também a resposta do organismo ao stress, causa morte celular e envelhecimento precoce.
Quem não dorme bem também tem maior tendência a obesidade. Durante o sono os níveis de leptina, hormônio que inibe o apetite aumenta. O nível de grelina e insulina diminuem porque as necessidades energéticas diminuem. Dormir pouco ou dormir mal altera a regulação destes hormônios levando ao aumento de ingestão de alimentos e alteração do metabolismo energético favorecendo o acumulo de gordura.
A sonolência excessiva diurna é o principal sintoma nos casos dos distúrbios intrínsecos do sono que levam ao sono não reparador. O mais comum e mais grave é a Síndrome da apnéia do sono obstrutiva*. Nestes casos a presença de ronco dá o alerta e a investigação é feita através da polissonografia. .


Suite para a realização de polissonografia. 
Clínica Neurosaúde Blumenau- Setor de Distúrbios do sono. Fone (47) 3322-1522   

 * Aguardem a postagem do artigo: “Apneia do sono”, neste blog

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Autismo e Asperger - Diagnósticos mais claros

 Considerado, de forma geral, um distúrbio de desenvolvimento causado por condições genéticas, o autismo tem como característica fundamental o prejuízo na comunicação social e a presença de comportamentos peculiares. Alguns sinais como a dificuldade de contato ocular podem ser percebidos desde os primeiros meses de vida. 
A neurologista infantil Lúcia Machado Haertel explica que crianças com, aproximadamente, um ano e meio de idade ainda não têm a comunicação verbal totalmente desenvolvida. Por isso, nessa idade, deve existir uma comunicação não verbal bastante rica, com manifestações das emoções através de mimicas, gestos e expressões faciais diversas. “Entre um e dois anos, a criança observa muito as expressões faciais da mãe. A falta dessa interação é um sinal de alerta precoce para o diagnóstico do autismo. Ao longo dos próximos meses, o quadro vai se definindo melhor. Outros sinais na criança são a falta de comportamentos de imitação, de apontar, mostrar e trazer objetos de interesse para compartilhar”, diz a neuropediatra.
Geralmente, há uma falta de interesse por pessoas, não havendo uma reciprocidade social. A ausência ou dificuldade na comunicação social priva a criança de estímulos adequados para o desenvolvimento. Por isso, é muito importante o diagnóstico e a intervenção precoces. Mesmo não existindo uma cura, muitos dos sintomas podem ser amenizados com terapias de estimulação. Os autistas mais graves podem não desenvolver a linguagem verbal e apresentar grandes limitações necessitando de suporte significativo ao longo de toda a vida.  Outros com formas leves, bom  nível intelectual e de linguagem podem achar um nicho que se adapte a suas habilidades e interesses especiais e, assim, viver e trabalhar de forma independente. Mas permanecem socialmente  vulneráveis, com dificuldades para lidar com as demandas diárias sem ajuda”, salienta Dra. Lúcia.
Critérios para diagnóstico do Autismo
As limitações e prognóstico estão relacionados com o nível de gravidade  do transtorno. Têm melhor prognóstico aqueles que não apresentam comprometimento intelectual e conseguem desenvolver uma linguagem funcional até os cinco anos. O diagnóstico é feito clinicamente.  Os critérios mais aceitos mundialmente estão  no Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - DSM), publicado pela Academia Americana de Psiquiatria. 
 Síndrome de Asperger
Há um ano o DSM passou por uma revisão que aboliu a Síndrome de Asperger como diagnóstico. Na atual classificação do DSM 5, só existe o Transtorno do Espectro Autista dividido em três níveis de gravidade.  “As características básicas continuam as mesmas nos três níveis, mas variam na intensidade justificando a denominação de Espectro Autista ”, explica a neurologista.
 Dra Lucia explica que, desde 1994, com a inclusão no DSM-4, a Síndrome de Asperger vem causando controvérsias. O único critério que a diferenciava do autismo leve era que, na síndrome de Asperger, não poderia haver atraso no desenvolvimento da linguagem.  Os critérios antigos davam margem a interpretações pessoais principalmente por não especialistas. Isso, associado à popularização e utilização indiscriminada do DSM como se fosse um manual de instruções, causou uma ‘epidemia’ mundial da Síndrome de Asperger.  Assim, com as mudanças atuais no DSM 5 haverão diagnósticos mais precisos. “Os pacientes anteriormente diagnosticados com Síndrome de Asperger deverão ser reavaliados e, se preencherem os novos critérios, serão considerados autistas. Se não preencherem, deverão ser avaliadas outras possibilidades de diagnóstico diferencial. Com critérios mais bem definidos,  parte dos pacientes não poderão ser considerados autistas”, afirma a neurologista.
Afinal, crianças podem ter dificuldades de socialização também por timidez, fobia social, imaturidade no desenvolvimento, deficiência intelectual, falta de limites, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, transtorno desafiador opositivo, entre outros. Outro fato que costuma ser indevidamente avaliado é a presença de padrões repetitivos de comportamento e interesse.
“Pré-escolares normais apresentam fases em que preferem um tipo de brinquedo, querem ver o mesmo filme ou escutar  a mesma historia várias vezes e isso isoladamente não é diagnóstico de autismo. Afinal que menino normal nunca teve uma fase de paixão por dinossauros? A repetição faz parte do aprendizado infantil. Para a suspeita de autismo os padrões de interesses restritos devem  intensos e anormais em relação aos padrões habituais da idade, como, por exemplo, uma criança que passa horas enfileirando carrinhos sem brincar com eles ou um menino de  5 anos que se comunica mal mas já memorizou todas as marcas de carro e só quer desenhar placas de transito.”, explica. O diagnóstico correto é importante para que haja uma intervenção adequada.
Versão resumida publicada na revista UNIMED de Blumenau, edição 79.
http://www.mundieditora.com.br/h/i/8512443-unimed-79-digital
 Mais informações:  Dra. Lúcia Machado Haertel
Neurologia Infantil – CRM 6338   (47) 3322-1522



sexta-feira, 4 de abril de 2014

E aquela história dos 10% do cérebro?



                Será que usamos mesmo apenas 10% do nosso cérebro? 
                Em relação a esta frase, a única coisa que a ciência não consegue explicar é como este mito surgiu. Afinal, a afirmação não faz nenhum sentido. A natureza não passaria centenas de milhares de anos aperfeiçoando sua obra prima, desenvolvendo um cérebro com 86 bilhões de neurônios para depois usar só 10%.


Originar neurônios a partir de células-tronco até eles estarem armazenando informações é um processo muito complexo. Neurônios custam muito caro! Nossas trilhões de sinapses são oriundas da síntese de proteínas, e a bainha de mielina, material isolante que possibilita a condução do impulso elétrico pelo axônio, é constituída por lipídeos. Há milhares de anos, nutrientes nobres como proteínas e lipídeos não podiam ser encontrados em supermercados!  Evolutivamente, desperdiçar matéria prima para formar e manter tantos neurônios inúteis não faria sentido algum. Desperdício é coisa do homem moderno, e neste ponto, ter um supercérebro não vem ajudando muito! Além disso, neurônios são nobres e vivem na mordomia, cercados pelas células da glia, suas assistentes pessoais. Sua função é alimentar, proteger e desintoxicar nossos neurônios fazendo hora extra e adicional noturno na adolescência! Manter tantos colaboradores também é biologicamente caro. Com apenas 2% do peso corporal, o cérebro consome 20% da energia do organismo.
                 Alguns afirmam que os 90% serviriam de reserva para recuperar lesões. Isso seria ótimo! Mas, infelizmente, nosso cérebro foi moldado na pré-história e antes do advento da medicina, a seleção natural era cruel. Só os mais fortes sobreviviam, e a expectativa de vida era extremamente curta. Ter reserva não faria sentido! Portanto, querido adolescente, se você beber, bater o carro e sofrer uma lesão cerebral poderá até se recuperar, mas não à custa dos 90% da dita reserva e sim do trabalho dobrado dos neurônios que sobraram! Neurônios não se regeneram. Pensem nisso e cuidem bem dos seus!
                A ciência já provou que neurônios inativos morrem. Portanto, não existem neurônios inativos e nós usamos sempre 100% do nosso cérebro. Ponto final. Mesmo no cérebro infantil, o qual possui um maior número de neurônios, eles estão todos ativos e formando circuitos, ainda que mais básicos. Com a idade, vai ocorrendo uma seleção dos circuitos mais úteis e eficientes, e neurônios não utilizados sofrem um processo de morte natural programada.
Usamos sempre todo o potencial do nosso cérebro para determinada atividade. O que pode variar é a eficiência. Esta variação pode ser significativa de um dia para o outro, dependendo dos nossos chamados “sistemas modulatórios de projeção difusa”, os quais “temperam” aqui e ali o nosso cérebro com neurotransmissores como a noradrenalina, a dopamina e a serotonina entre outros. Tais “temperinhos” regulam nosso estado de alerta, de atenção, de motivação e de humor, influenciando significativamente o nosso desempenho e nossa memória a cada momento. Todos sabem como é difícil ler um texto quando estamos sonolentos, desatentos, desanimados ou de mau humor!
                Mas se já usamos 100% do cérebro, como podemos aprender coisas novas e melhorar nossas habilidades?
A capacidade de aprender é ilimitada. Você pode aprender qualquer coisa - desde que haja dedicação. A base do aprendizado é a formação de novas conexões sinápticas, o fortalecimento das já existentes e a formação de novas associações entre neurônios, criando circuitos mais complexos. Não ocorre através do recrutamento de neurônios que estavam à toa! Na verdade um aprendizado quando bem consolidado, exigirá menor número de neurônios para mantê-lo.
               
                A história dos 10% é tão difundida que existem livros de autoajuda ensinando como usar os outros 90%! É a “neuróbica”, a malhação do cérebro. Malhar o cérebro é aconselhável, desde que com atividades que estimulem a memória, a atenção, o raciocínio, a imaginação; ou seja, que resultem na formação de sinapses úteis. O sistema nervoso é plástico. Se for estimulado, aumenta seu o potencial. Mesmo com toda a tecnologia existente no século XXI, o melhor estimulante para o cérebro ainda é uma boa leitura. A atividade física regular também é eficiente, uma vez que libera neurotransmissores que melhoram o funcionamento geral do cérebro e da memória.

Mas cuidado com a "neuróbica" que propõe exercícios esdrúxulos como andar pela casa de olhos fechados, ler de cabeça para baixo, comer chucrute com melancia, usar a mão esquerda para escovar os dentes ou fazer outras coisas estranhas com o objetivo de estimular neurônios inativos do cérebro. Isto não faz sentido! Mesmo nos casos de reabilitação após uma lesão cerebral,  a melhora ocorrerá basicamente pela formação de novas sinapses e circuitos.   

                Fiz meu próprio experimento científico no  meu clube. Após uma grave lesão jogando tênis, fiquei três meses com o braço direito completamente imobilizado. Usar apenas a mão esquerda durante três meses provocou, de fato, algumas alterações temporárias no meu cérebro, mas apenas nas áreas que regulam o meu estado de humor. Que coisa mais chata! Infelizmente, não fiquei nem um pouco mais inteligente por isso...

Publicado na revista Tie Break. Blumenau-SC

quinta-feira, 13 de março de 2014

O cérebro de Einstein





Sempre achei que alguma coisa no cérebro de alguns alunos, daqueles que prestavam vestibular para o ITA, era diferente. Esta diferença cerebral parecia separar minha turma do terceirão em dois grupos: Os que gostavam de matemática e os que gostavam do resto! Eu, claro, fazia parte do segundo grupo.  
Afinal, o que há de diferente no cérebro dos grandes matemáticos? Tal curiosidade fez com que o cérebro de Einstein fosse retirado e estudado logo após a sua morte, em 1955.
Os primeiros estudos do cérebro de Einstein foram decepcionantes: ele era menor do que a média masculina. Pesava 1230 gramas aos 76 anos, o que corresponderia a um cérebro de 1352 na adolescência. Nada excepcional. É o tamanho médio de um cérebro feminino. Assim, temos nossa primeira conclusão: tamanho não é documento! O fator determinante de sua inteligência não era um maior número de neurônios. Foi observado que o lóbulo parietal superior direito, área cerebral relacionada ao pensamento matemático e habilidades espaço-visuais, era mais desenvolvido do que a média, contando com conexões mais numerosas e mais complexas entre seus neurônios.  Isso explicava suas habilidades matemáticas superiores. Nesta área os homens costumam, realmente, ser melhores do que as mulheres. Mas se fosse apenas isto Einstein poderia ter passado a vida toda fazendo contas sem descobrir nada novo.


No entanto, Einstein não era apenas um gênio da matemática. Sua inteligência era excepcional em termos globais, fato este, não explicado até recentemente. Um novo estudo do seu cérebro* evidenciou que outra área cerebral, o giro frontal médio, era extraordinariamente mais desenvolvida do que a média. Esta área é responsável pelas funções mais complexas da mente humana: Atenção, organização de informações, planejamento diante de um objetivo, resolução de problemas, pensamentos complexos e abstratos, entre outros. Possibilita também outra importante habilidade: a de imaginar eventos e prever suas possíveis consequências. Isso sim explica muita coisa! Bem mais do que uma habilidade superior na matemática. Esta área nos permite experimentar mentalmente. Para um cientista, independente da área de atuação, a intuição e a imaginação são tão importantes quanto o estudo. Estas habilidades nos permitem criar ideias novas apoiando-se em conhecimentos prévios dentro de certa lógica. Possibilita vivenciar mentalmente experimentos impossíveis de serem vividos na prática. Einstein imaginava-se apostando corrida com um raio de luz ou acelerando-se dentro de um elevador em direção ao espaço. Assim criava suas teorias, muitas só comprovadas anos depois. 
Foi considerado o maior físico teórico de todos os tempos. Ganhador do prêmio Nobel, seu trabalho mudou as ideias vigentes sobre espaço, tempo e matéria.  
Vocês sabiam que o cérebro masculino pesa, em média, 1,5 kg, enquanto o feminino, 1,3kg?  Sim, o cérebro do homem é maior do que o da mulher, tendo, em média, 15% de neurônios a mais. Nem pensem que isto seja uma prova de que homens são mais inteligentes do que mulheres. O cérebro de Einstein demonstrou que a inteligência não depende do tamanho do cérebro e de um maior número de neurônios. O importante é onde estão localizados e a complexidade das conexões entre eles, propiciando uma maior eficiência do trabalho mental. Em termos de inteligência global não há diferenças entre homens e mulheres. Einstein viveu numa época em que as mulheres não tinham as mesmas oportunidades e a ciência era dominada por homens. Com direitos igualitários, a mulher passou a conquistar espaço em todas as áreas, demonstrando que cérebros excepcionais como o de Einstein existem independentemente do gênero do portador.
Mas então para que servem estes 15% de neurônios a mais da maioria dos homens?
Na verdade, tal excesso é proporcional à maior massa corporal do homem, e está localizado nas áreas motoras. Com tantos músculos, é necessário um número maior de neurônios para comandá-los, melhorando assim a eficiência do trabalho braçal! Realmente, os homens são melhores do que nós em rachar lenha, quebrar pedras, empurrar móveis, correr atrás de baratas e carregar nossas sacolas de compras!
Amo muito a matemática cerebral!


Publicado no jornal "O Tempo"de Belo horizonte e na revista Tie Break de Blumenau
* dados científicos extraídos do artigo da revista Brain Journal of Neurology 2013:136;1304-1327  




terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

As Habênulas (II)

As habênulas  são o centro de um sistema considerado antagônico ao  sistema de recompensa do cérebro. O sistema de recompensa é um conjunto de estruturas (sendo a principal os núcleos Accumbens) responsáveis  por premiar, através de sensações de  prazer, os comportamentos importantes para nossa sobrevivência (reprodução, saciar a fome e a sede) através da liberação do neurotransmissor dopamina.  Esta é também liberada em situações do dia a dia que causam emoções positivas, tais como vencer um desafio, estudar e tirar uma nota boa, encontrar os amigos, ganhar um presente ou simplesmente ver a felicidade de alguém amado. As nossas Habenulas são, por outro lado, o centro do sistema de punição ou de anti-recompensa do cérebro, o qual é ativado quando tomamos decisões erradas ou não atingimos um objetivo esperado. Esse processo é importante para que aprendamos com nossos erros, memorizando situações em que o resultado final não foi bom. Sua ativação não resulta, portanto, numa sensação agradável, mas sim em sentimentos negativos como frustração, angústia, e tristeza. Afinal, as habenulas fazem inúmeras conexões sinápticas com o  núcleo accumbens causando a inibição da liberação da dopamina.
                - Pera aí! Para tudo!!! Quer dizer que nosso cérebro tem todo um complexo sistema encarregado de jogar um balde de água fria na nossa felicidade e prazer, comandado pelas  minhas queridas  habênulas?
                - Sim! Exatamente.
                - Mas... Queremos nossa dopamina!!!
                - Minha filha,  você sabe que felicidade e prazer demais também fazem mal.
                - Sim. A hiperativação do sistema de recompensa ou a falta do efeito inibitório das habenulas, resultariam num quadro de felicidade constante e sem motivo.  Seria uma euforia exagerada, um estado de autoestima elevada demais conhecido como “mania”. Esse grave distúrbio psiquiátrico pode colocar o portador em risco, uma vez que ele acha que pode fazer tudo, não percebe as consequências de seus atos, não tem medo de nada e se acha a “a última bolacha do pacote”, apresenta comportamentos de risco e toma decisões financeiras desastrosas!
                É perigoso achar que a vida é só felicidade. Importante é perceber o lado positivo e negativo do nosso comportamento e avaliar suas consequências, aprendendo com elas. As áreas de recompensa do cérebro precisam de limites, neurologicamente falando, da modulação inibitória exercida pelas habênulas. 
Mas o oposto também ocorre. Está comprovado que a hiperativação das habênulas está envolvida nos quadros depressivos, pois causa um estado de humor inverso: angústia, tristeza, incapacidade de sentir prazer, felicidade e de enxergar o lado bom da vida. É como ver o mundo pelos 50 tons mais escuros.
                Como visto, as habênulas e suas interações com o núcleo accumbens atuam na regulação do nosso estado de humor. Quando bem equilibradas, fazem com que tenhamos variações entre tristeza e alegria com intensidade e duração proporcionais à realidade.
                - Então o grau de felicidade e tristeza de cada um depende apenas de uma guerra neuroquímica acirrada entre a habênula e o accumbens?
                  Bem, as coisas no cérebro não são assim tão simples... São trilhões de sinapses entre diversos sistemas antagônicos que fazem com que cada pessoa seja diferente da outra nos mais diversos aspectos da sua personalidade. Simplificadamente, entretanto, tais estruturas cerebrais atuam sim regulando os 50 tons de humor da massa cinzenta!




segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

As Habênulas ( I )


Em uma noite como outra qualquer recebi um telefonema:   - Alô?
- Oi filhaaa! Tudo bem? - Falou a inconfundível e sempre bem-humorada voz de meu pai.
- Tudo bem, pai! E com você?
- Tudo ótimo! Tenho uma grande novidade pra te contar. Descobriram a função das habênulas!
                - Nossa! É mesmo? Finalmente! Me conta tudo! – Disse-lhe com entusiasmo.

                Nossa conversa seguiu animada, como de costume. Entretanto, ao desligar o telefone parei para pensar. Que conversa surreal! Em que outro lugar do planeta poderia haver uma conversa entre pai e filha tão fluente sobre o tema “habênulas”?
O diálogo foi muito interessante. Lembrei-me de que a minha relação com as habênulas é antiga. Eu as conheci há 30 anos numa aula prática de neuroanatomia - eram tão bonitinhas! Fiquei curiosa e perguntei ao então professor (e meu pai), o Dr. Angelo Machado:
- Pai, o que são as habênulas?
- São um par de estruturas compostas pelo núcleo das habênulas, localizada no trígono das habênulas e unidas entre si, nesse ponto, pela comissura das habênulas - Disse-me ele, mostrando-me em um cérebro humano todas as estruturas mencionadas.
- Ah, entendi! Mas então, pra que servem as habênulas?
- Ninguém sabe, filha! Ainda não descobriram... – Lamentou.

                Imediatamente simpatizei-me com elas, ficando, ao mesmo tempo, muito intrigada. Eram duas estruturas tão redondinhas, bem delimitadas e conectadas! Tinham que servir para alguma coisa!
                Os anos se passaram, sendo que, de vez em quando, eu ouvia falar nelas. Nesses momentos, a velha pergunta me voltava à mente: Afinal, para que servem as habênulas? Em 30 anos de contato esporádico, já me sentia íntima das habênulas - tanto que esse nome não me soava mal. Com toda certeza, não chegaria ao ponto de usá-lo em meus filhos, mas depois de ter visto alguns nomes por aí – Wandercleysson, Dsornuelson e até um Rosbeef! – “Habênula Machado Haertel” não seria, de forma alguma, o pior deles.
Lembrei-me de que nomes estranhos eram mencionados no dia a dia de minha família tão naturalmente que não chamavam a nossa atenção. Afinal, meus pais são neurocientistas e membros titulares da Academia Brasileira de Ciências. Nem por isso eram pais ausentes, do tipo cientistas malucos. Minhas melhores lembranças de infância são os finais de semana - sempre havia alguma programação! Na época, sem computadores e internet, era necessária muita criatividade para entreter quatro filhos. Íamos à praia (sendo nossas preferidas as do sul da Bahia), aos parques de diversão, cidades históricas e à fazenda do meu avô, onde encontrávamos todos os tios e primos e tudo era sempre muito divertido. Meu pai, dotado de especial habilidade para lidar com crianças, vivia cercado pelos filhos, sobrinhos e  filhos de amigos. Mesmo a mais emburrada das crianças não conseguia resistir às suas palhaçadas! Não gerou surpresa alguma quando, como hobby, tornou-se escritor de literatura infantil, publicando mais de 40 livros. Pela sua obra, ganhou alguns prêmios de literatura e de divulgação científica para crianças, além de ter se tornado membro da Academia Mineira de Letras.
Mas voltando às queridas habênulas... Foram necessários 30 anos desde que fiz aquela pergunta ao meu pai para eu obter minha resposta, o que justifica meu entusiasmo pelas revelações do telefonema.
E você? Sabe para que servem as habênulas?
Aguardem a próxima postagem...


               


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A culinária e o cérebro




As festas de fim de ano são marcadas por encontros sociais e familiares em torno de uma boa e farta mesa. E o que o cérebro tem a ver com isso? Tudo! Nosso cérebro desenvolveu o fantástico número de 86 bilhões de neurônios graças à culinária.
A teoria, que pode parecer maluca, foi proposta pelo antropólogo Richard Wrangham. Ele sim era meio maluco e passou uns tempos no mato alimentando-se como um macaco para provar que não teríamos desenvolvido um cérebro com tantos neurônios comendo apenas vegetais crus. A neurocientista Suzana Herculano-Houzel popularizou a teoria e suas pesquisas deram-lhe maior embasamento científico.


Nossos ancestrais há aproximadamente 1,8 milhão de anos descobriram o fogo e como amaciar e melhorar o sabor dos alimentos pelo cozimento. O Homo erectus tinha um cérebro de 870 gramas e comendo apenas alimentos crus encontrados na natureza, não poderia ter um cérebro maior. A evolução levou ao Homo sapiens com um cérebro de 1,5 quilos e 86 bilhões de neurônios. Mas como? Manter o cérebro funcionando custa caro, seis calorias por bilhão de neurônios por dia.
Os gorilas tem 30 bilhões de neurônios e precisam passar 9 horas por dia comendo. Portanto, se continuássemos nos alimentando como os outros primatas, gastaríamos o dia todo procurando e consumindo alimentos para manter nosso corpo e cérebro. Impossível! Algo mudou ao longo da evolução e tudo indica que foi o cozimento que pré-digere o alimento quebrando suas moléculas. Isso levou a um maior aproveitamento dos nutrientes e possibilitou o desenvolvimento de um maior número de neurônios.
O tempo gasto com a alimentação reduziu, e assim, sobrou mais tempo para gastar os neurônios com coisas mais úteis e interessantes! Dessa forma, as ferramentas foram desenvolvidas, facilitando a caça, o surgimento da agricultura e gerando maior oferta de alimentos.

Antes, cada um comia sozinho aquilo que encontrasse na natureza. O cozimento fez com que toda a comunidade passasse a fazer suas refeições em conjunto, partilhando a comida, estreitando os laços sociais, desenvolvendo a linguagem e a troca de experiências. Surgiram cidades, comércio, cultura, tecnologia, restaurantes... Assim o cérebro e a humanidade se desenvolveram, tendo a culinária como pano de fundo. Reuniões em torno da comida existiam desde antes do Homo sapiens e continuamos fazendo isto até hoje, apoiados pelo sistema de recompensa do cérebro. 

Comer é essencial para a sobrevivência e, portanto causa sensação de prazer. Mais uma forcinha para a comilança! Juntou a fome com a vontade de comer! Embora ainda exista muita fome no mundo, nas regiões desenvolvidas comemos mais do que precisamos. Não por necessidade, mas por prazer. A indústria entrou na festa, criando alimentos cada vez mais saborosos e calóricos. 

Obter energia ficou muito fácil. Assim, aquilo que evolutivamente fez aumentar nosso cérebro, atualmente só faz crescer a nossa barriga e reduzir a saúde - inclusive a do próprio cérebro.
Qual a solução? Não precisamos voltar a nos alimentar como macacos, mas vai uma saladinha crua aí hoje?





Por Lucia Machado Haertel. Publicado no jornal O Tempo de Belo Horizonte em 20/12/2013 e revista Tie Break janeiro 2014