quinta-feira, 26 de março de 2015

Machado de Assis, o Epiléptico

           Vinte e seis de março é o dia mundial de conscientização sobre a epilepsia, um distúrbio cercado de mitos e preconceitos desde o Egito antigo. Ao longo de milênios de ignorância, várias hipóteses foram postuladas para explicar as crises epilépticas: punição dos deuses, incorporação de espíritos ou até mesmo, coisa do demônio. No Brasil do século XIX, a epilepsia era considerada doença mental, relacionada à insanidade e pasmem, à criminalidade. Os portadores eram internados em manicômios. Alguns países esterilizavam os doentes mentais entre eles, os epilépticos, para que não transmitissem a enfermidade. Foi neste contexto que nasceu o maior escritor brasileiro: Machado de Assis.


Nascido sob condições adversas, suas chances de ascensão social eram extremamente improváveis. Ele era franzino, pobre, sem estudo regular, gago, descendente de escravos e ainda por cima, epiléptico! Apenas um talento genuíno o faria superar o preconceito racial e o estigma da epilepsia em plena época da escravidão no Brasil. Ele escrevia maravilhosamente em todos os gêneros literários desde os 16 anos.
Nesta época não havia tratamento eficiente e o escritor tinha que conviver com a angústia de ter uma crise epiléptica a qualquer momento. Sua esposa e os amigos tratavam de socorrê-lo evitando que o conhecimento do seu transtorno se espalhasse. A primeira pergunta que fazia ao recobrar a consciência era: Alguém viu? Ele vivia assombrado pelo medo da ocorrência de crises em público o que poderia resultar numa internação em um manicômio.
Em 1896, Machado de Assis fundou a Academia Brasileira de Letras. Conquistou seu espaço em um ambiente extremamente intelectualizado e elitizado colocando abaixo todas as ideias preconceituosas sobre superioridade social e racial. Tampouco a epilepsia o impediu de demonstrar sua extrema inteligência e capacidade intelectual.   

Felizmente a medicina evoluiu e descobriu que a epilepsia é causada por  um distúrbio da atividade elétrica do cérebro.  Hoje existem medicamentos eficientes e a maioria dos pacientes leva uma vida normal como outros portadores de doenças crônicas como o diabetes, a asma e a hipertensão.  A sociedade também precisa evoluir e acabar com o preconceito milenar que atinge a epilepsia e outros transtornos do cérebro.  
Dra. Lúcia Machado Haertel - Neurosaúde - Blumenau (47) 3322-1522 

segunda-feira, 9 de março de 2015

A atividade física e a memória

                                                                                           
                 A ideia de que nascemos com todos os neurônios que vamos ter ao longo da vida sofreu modificações na última década. Existem duas exceções. Uma delas é o hipocampo onde neurônios novos são produzidos diariamente. No entanto, tais neurônios tem vida curta. Não são como os velhos, os quais, gerados na vida fetal, serão nossos companheiros para o resto da vida!  
                 O hipocampo é uma pequena área do cérebro responsável pela aquisição de novas memórias. Tudo o que vivemos e aprendemos no dia a dia passa por ele na fase de aquisição. Depois que a memória está consolidada, ela é transferida para diversas áreas cerebrais propiciando seu armazenamento à longo prazo. Terminado este processo, os neurônios novos perdem sua função e morrem.
                Os neurônios novos do hipocampo continuam sendo produzidos ao longo de toda a vida. Portanto, embora a capacidade de aprendizagem de jovens seja incomparável à dos idosos por diversos fatores, pessoas mais velhas ainda possuem boa capacidade de adquirir novos conhecimentos. Essa informação motivar os idosos a continuarem tendo uma vida intelectualmente ativa e vivendo novas experiências. 
                Sabe-se também que, na depressão, ocorre redução da produção desses neurônios e os hipocampos dos pacientes deprimidos costumam ser menores do que a média. Isto explica os problemas de memória frequentemente observados nesses pacientes. O stress crônico também causa morte de células dessa área do cérebro.
                Outra novidade instigante é que estudos demonstraram que antidepressivos (como a fluoxetina, por exemplo) aumentam a produção de neurônios novos no hipocampo. Calma! Nem pensem em começar a toma-la para melhorar a memória! Não há evidências de que o remédio tenha o mesmo efeito em pessoas não deprimidas, e não quero, de forma alguma, contribuir para o já excessivo uso de fluoxetina na epidemia mundial de depressão.
                Se a questão é melhorar a memória, há uma solução bem mais fácil e saudável! Está provado que o exercício aeróbico também aumenta a produção de neurônios novos no hipocampo, tanto em deprimidos como em não deprimidos. Portanto, pode melhorar a memória! A atividade física tem  inúmeros benefícios que todos conhecemos: melhora o sistema cardiovascular, previne infartos cerebrais e do coração, melhora o controle de hipertensão e do diabetes. Além disso, são baratos, fáceis, naturais, estimulam a socialização e só dependem de motivação.  Vencida a preguiça, passamos a sentir prazer com a atividade física, através da liberação de dopamina e endorfinas, sendo que as últimas reduzem também a dor e desconforto físico. A atividade física estimula também a produção de  prolactina - um calmante natural para o cérebro -, reduzindo os efeitos negativos do stress. Toda esta “química cerebral” aumenta a produção de neurônios novos no hipocampo!
                Assim, para melhorar o funcionamento geral do nosso cérebro e nossa memória, ao invés de mandar colocar fluoxetina na água encanada, “bora” todo mundo malhar!

Lucia Machado Haertel, Publicado também na Revista Tie Break

                

domingo, 2 de novembro de 2014

O VESTIBULAR E O MEDO

              Os vestibulares estão chegando e se você é candidato, um sentimento com certeza não sai da sua cabeça – o medo. É possível se preparar para o vestibular sem ele? Não! O medo, emoção mediada pela amígdala cerebral, é fundamental para o sucesso. Quando descontrolado levará ao pânico e ao stress, os quais não irão te ajudar muito. Porém, existem áreas cerebrais encarregadas de controlá-lo e usá-lo a seu favor, sob a forma de cautela e preocupação. Uma pitada de medo melhora o desempenho cerebral para a resolução de problemas e tomada de decisões. O vestibular é um grande desafio cujo resultado não é garantido nem para os mais preparados. Sem o medo da reprovação você não iria se preocupar... e deixaria de agir!

                E como isto funciona no cérebro? Além do medo, nos desafios com desfecho imprevisível, o córtex cingulado anterior também é ativado e dará o alerta: Você está diante de uma situação de risco, tudo pode dar errado, então, mexa-se e tome providências! Em seguida, outras áreas cerebrais especializadas na resolução de problemas serão ativadas para auxiliá-lo. O medo continuará ali, mas sob controle. O córtex frontal dorsolateral, responsável pelas funções executivas dará o primeiro passo levando à iniciativa, à organização e ao estabelecimento de horários, objetivos e prioridades.  Segundo passo: Combater a procrastinação, vulgarmente conhecida como enrolação e adiamento constante. Mantenha a concentração e resista às tentações. Acreditar no bom resultado é fundamental e ativará o sistema de recompensa cerebral dando-lhe motivação para seguir em frente. A motivação é também um potente facilitador da memória.
                Mantenha a amígdala cerebral sob controle! Esta área primitiva do seu cérebro tentará fazê-lo entrar em pânico. Não caia nessa! Alguma ansiedade é inevitável. A diferença entre ela e o stress está na dose! Uma ansiedade leve melhora o desempenho cerebral e se evoluir para o stress crônico, passará a prejudica-lo. A liberação prolongada do cortisol, considerado o hormônio do stress, causará diversos efeitos deletérios para o organismo como insônia, fadiga, gastrite e queda da imunidade. Causará também a morte de neurônios no hipocampo, a estrutura cerebral responsável pela memoria.
                É preciso, sim, estudar muito. Portanto, quem começou cedo terá vantagens. O cérebro não é capaz de receber, na última hora, o conhecimento de um ano inteiro. A memória tem limites e precisa de descanso. Uma boa noite de sono é fundamental para consolidar o que foi aprendido durante o dia. Portanto, deixar de dormir para estudar não é uma boa ideia! Uma boa organização permitirá manter  algumas atividades de lazer. A atividade física também ajuda a combater o stress e melhorar o desempenho do cérebro e da memória.


                Assim, pensamento positivo é bom, mas sozinho não resolve! Tem que ser acompanhado de ações positivas. Se você usou o medo a seu favor e se dedicou, acredite em você e boa sorte! 

Dra. Lucia Machado Haertel - Clínica Neurosaúde - Blumenau Fone: 3322-1522

Publicado também  no jornal de Santa Catarina  de Blumenau e Jornal O Tempo de Belo Horizonte

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O que é o medo?

                                                                                                 

Um dia destes, um biólogo desesperado procurou o meu pai. Como médico neurocientista, ao invés de um consultório ele tinha um laboratório de pesquisas sobre o cérebro na UFMG. De vez em quando aparecia alguém lá querendo se consultar e no máximo o que conseguia era um bom papo! O biólogo contou que estava com a nova namorada encostado no muro, no maior entusiasmo e... de repente começou a berrar feito louco e saiu correndo deixando a namorada sozinha! Não, ele não estava fugindo da mulher! Tinha é fobia de baratas e acabara de ver uma. Ele não tinha medo de cobras, de onça, de nada! Apenas de baratas e já tinha passado por diversas situações constrangedoras. 
                        Afinal, o que é o medo e  por que ele, às vezes, é tão irracional?
                        O medo é uma função cerebral primordial para a sobrevivência. Bastante primitiva, existe há milhões de anos e todos os vertebrados a tem. O centro do medo é a amígdala cerebral (não é a da garganta, viu?). É do tamanho de um feijão, porém extremamente poderosa. Ela recebe informações de todos os órgãos sensoriais e na percepção de algo potencialmente perigoso desencadeia uma reação de alarme que rapidamente atinge todo o organismo preparando o indivíduo para lutar ou fugir! Na pré-história era a única opção diante do inimigo já que a diplomacia e negociações vieram depois!  É a chamada reação de emergência de Cannon: A adrenalina é liberada, as pupilas se dilatam, a pressão arterial aumenta, o coração dispara, a respiração acelera, o glicogênio é mobilizado para dar energia, o sangue se concentra no coração e nos músculos. Pronto, você está preparado para correr!  Além disso, tem uns detalhes bizarros: uma outra área cerebral faz você produzir caretas características de forma automática. Se você pretende lutar faz cara de raiva e berra para intimidar o inimigo; se pretende fugir faz cara de medo, berra também e... pernas pra que te quero! Medo e raiva são reações primitivas que no homem evoluído são controladas por outras áreas cerebrais destacando-se o córtex pré-frontal. Este faz uma análise mais elaborada da situação e por isto demora alguns segundos para reagir. Às vezes não dá tempo de controlar a amígdala que age por impulso!
                         Vemos um vulto na escuridão, a amígdala dá o alarme, pode ser perigoso! A tal reação de emergência de Cannon começa. Em seguida o córtex pré-frontal analisa melhor, vê que era só a sombra de uma árvore e aborta a reação que vira apenas um susto. E se fosse um bandido armado? Esta parte primitiva do seu cérebro iria desencadear automaticamente a reação de fugir ou lutar como se ainda vivêssemos na pré-história. Mas no mundo moderno com armas de fogo não podemos mais fazer isto! Portanto, respire fundo, conte até três pra dar tempo do teu córtex frontal tomar a decisão correta de paralisar, não reagir e obedecer! Senão... a tal reação de emergência pode fazer você entrar pelo Cannon!!                                   
                        Nos quadros de ansiedade, fobia e pânico esta área cerebral funciona de forma desregulada. Na Síndrome do pânico, a reação de emergência ocorre na ausência de um perigo real. Na fobia por baratas, provavelmente na primeira vez em que o biólogo viu uma, houve uma hiperativação da amígdala, sem modulação. A reação foi memorizada passou a ocorrer a cada vez em que ele era exposto àquele estímulo, ou só de pensar nele.
                        Crianças nascem sem medo. Os pais, educadores ou o ambiente vão ensinando o que deve ser temido. É bom não exagerar nos “ensinamentos”, pois as amígdalas são poderosas, tem pouca plasticidade (“jogo de cintura”) e nunca se sabe quando uma reação fóbica acontecerá. Instalada a fobia, não adianta dizer coisas como: “ deixa de ser medroso!”ou “que bobeira, não precisa ter medo!”.  Quem vai ter que dizer isto ao fóbico é seu próprio cérebro! Algo vai ter que mudar lá dentro, nos circuitos cerebrais. O medo nem sempre é racional e cada um tem os seus! Como a fobia foi aprendida é possível fazer o cérebro desaprender, ou pelo menos aprender a controlá-la.
                         Sob controle, o medo é uma emoção fundamental, pois leva o indivíduo a agir com cautela e ter preocupações normais no dia-a-dia. Boas decisões são tomadas com a adequada avaliação de riscos e consequências. Um indivíduo que não tem medo de nada, não sabe lidar com situações de risco e toma decisões desastrosas. As áreas cerebrais capazes de controlar o medo excessivo terão que fortalecer seus circuitos inibitórios sobre a amígdala.  Criada para proteger o indivíduo de riscos reais, a amígdala tem reação mais rápida e controla-la pode demorar um pouco. Isto é possível através da ajuda de psicoterapia e se necessário, de medicamentos.
                        Assim, o melhor é não favorecer o aparecimento das fobias em crianças. Que tal começar não cantando aquelas musiquinhas inocentes de ninar como: “ boi da cara preta, pega este menino...”, “dorme nenê que a cuca vem pegar...”, “bicho papão sai de cima do telhado...”.  Não se deve utilizar o medo como ameaça para controlar o comportamento de crianças. Fale sempre a verdade! O medo é importante para proteger a criança e não pra facilitar a vida dos pais e educadores!
                        Alguns pais já entram no consultório dizendo: “Se você não ficar quieto a doutora vai te dar injeção!”
                        Eu??? Que mentira!!! Não dou injeção em ninguém!

Dra. Lucia Machado Haertel - Neurologia Infantil (47) 3322-1522
Publicado também na revista Tie Break - Blumenau-SC 


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O nosso e o deles!

A neurociência demonstrou que as diferenças entre homens e mulheres vão muito além dos órgãos genitais. Os cérebros feminino e masculino são diferentes. No entanto para decepção de muitos, estas diferenças não são tão acentuadas como a imprensa leiga propaga. Em livros do tipo “homens são assim e mulheres são assado” geralmente há um bocado de exagero. 
A maior e inquestionável diferença entre os cérebros masculino e feminino está em áreas específicas do hipotálamo, relacionadas ao comportamento sexual e opção sexual. Esta diferença cerebral faz com que homens se sintam atraídos por mulheres e mulheres por homens. Noventa por cento dos seres humanos se interessa pelo sexo oposto e isso se define no período fetal pelo efeito da testosterona.** Pára tudo!Testosterona no período fetal??? Sim. Ela está tão elevada nos fetos masculinos quanto na idade adulta, mas possuindo, nestas duas fases da vida, funções muito diferentes. Nos fetos, ao invés de promover o crescimento dos países baixos, ela atua lá em cima, no cérebro, causando mudanças significativas em um determinado núcleo do hipotálamo. É a chamada “masculinização”  do cérebro a qual definirá a atração sexual pelo sexo oposto na adolescência.  Ao nascer o bebê sofre uma redução drástica de seus níveis de testosterona até a posterior elevação na puberdade, quando assumirá sua função mais conhecida.  Entretanto, seus efeitos no cérebro já estarão definidos. Variações neste processo ocorrem em aproximadamente 10% da população que irá nascer com “cérebro padrão feminino em corpo masculino“ e vice-versa, sendo esta a base genética da homossexualidade. Assim a homossexualidade não é doença nem questão de opção ou de educação. O principal fator determinante é o hipotálamo fetal!
Outras diferenças entre os gêneros existem em relação a certas habilidades. Estas não são tão constantes nem tão evidentes quanto as diferenças hipotalâmicas mas são estatisticamente significativas na população.  Uma importante teoria sugere que em geral, as mulheres tem maiores habilidades de empatia, ou seja, capacidade de entender pessoas, sentimentos e emoções. Os homens, por sua vez,  possuem maior capacidade de sistematização, ou seja, habilidade para entender mecanismos, máquinas e como as coisas funcionam. **   
Outra diferença favorável aos homens está uma maior habilidade na orientação espacial. Eles, em geral, não se perdem facilmente dentro de sua própria cidade, sabem olhar mapas do lado certo e não falam “vire à direita” enquanto apontam a mão para o lado esquerdo. Mulheres não se orientam pelo senso de direção e estimativa de distância. Vão memorizando marcos pelo caminho em lugares menores. Assim, são melhores do que os homens para se orientarem num  shopping, memorizando o lugar das lojas!
Isto faz sentido evolutivamente! Lembrem-se, nosso cérebro foi moldado na pré-história. O homem tinha que andar longas distâncias para caçar e precisava achar o caminho de volta. Mulheres cuidavam da prole e coletavam alimentos nas proximidades. Ficavam longos períodos juntas, cuidando de um bando de crianças e .... conversando!   As mulheres em geral possuem maiores habilidades de comunicação devido a um maior número de sinapses por neurônio nas áreas de linguagem. Quanto maior o número de sinapses, maior a comunicação entre os neurônios. Eles estão certos quando dizem que nós falamos demais e queremos sempre discutir profundamente a relação. É o cérebro feminino, mulherada! Mas  não somos nós que falamos demais – são os nossos neurônios!
As mulheres também percebem melhor pequenos objetos, detalhes e diferenças estéticas. Por isto, para eles,  é difícil entender porque mesmo com dezenas de pares de sapatos, nenhum combina com aquela determinada roupa e que você precisa sim, urgentemente, de mais um. Isso sem falar na necessidade de múltiplos acessórios de moda. Se eles têm extrema dificuldade para enxergar o leite que está lá no meio na geladeira não vão prestar atenção no seu novo maxi colar. O homem tem um cérebro mais objetivo, gente! Eles gostam de coisas simples e grandes, não de coisas pequenas e cheias de detalhes. Não são de forma nenhuma difíceis de agradar.
Concluindo, as diferenças entre os gêneros envolvem também o cérebro. Sabe-se, por exemplo, que o cérebro do homem tem mais neurônios do que o da mulher, mas tal fato não lhe dá qualquer vantagem em termos de inteligência. Realmente os homens costumam ser melhores do que as mulheres em orientação espacial, números e matemática. Eles podem ter dificuldades para perceber que você colocou mega hair e que seu cabelo cresceu da noite para o dia ou  que você está de roupa nova, mas o rombo no cartão de crédito jamais irá passar despercebido!

Lucia Machado Haertel, www.neurosaude.com.br. (47) 3322-1522
Publicado também  no Jornal "O tempo"de Belo Horizonte e revista Tie Break de Blumenau.  
**Existem outros interessantes estudos sobre a influencia da testosterona fetal sobre o desenvolvimento cerebral, personalidade, comportamento e habilidades masculinas e femininas. Recomendo a leitura do livro A Diferença essencial. de Simon Baron Cohen 



sexta-feira, 27 de junho de 2014

PORQUE O CÉREBRO VICIA?

         Dia  26 de junho, é o dia mundial de combate às drogas e é comum que as campanhas que visam desestimular seu consumo mostrem pessoas praticamente já destruídas por elas.  As imagens, embora fortes, podem não atingir os potenciais usuários e os iniciantes. Nesta fase eles estão com a autoestima elevada e um contraste tão extremo passa a sensação de que isto nunca acontecerá com eles. É preciso explicar como se chega lá e iniciar admitindo que as drogas causam prazer sim, e, por isso, viciam. Elas atuam diretamente sobre o sistema de recompensa do cérebro, o qual é responsável pela sensação de prazer nas situações cotidianas normais, gerada pela liberação de dopamina. Sob o efeito das drogas, a quantidade de dopamina liberada é muito maior, proporcionando uma sensação intensa de prazer.  Esta ativação exagerada, no entanto, é agressiva para o cérebro, que irá se defender. Como? Reduzindo o número de receptores para a dopamina.  Assim, mesmo que a quantidade liberada pela droga seja a mesma, apenas uma porção cada vez menor irá efetivamente se ligar aos neurônios. Este é o mecanismo da dependência e faz com que o sistema de recompensa do cérebro se torne menos sensível ás drogas. O usuário ficará também insensível aos prazeres do dia a dia, que serão abandonados.  Apenas doses maiores e mais frequentes da droga conseguirão proporcionar o bem-estar almejado. Assim, a pessoa em questão passará a apelar para drogas mais potentes e a vida passará a girar em torno de obtê-las. Existe uma predisposição genética que determina maior risco de dependência em determinados indivíduos e fatores ambientais agravantes. No entanto, a dependência é um mecanismo cerebral involuntário que ocorre automaticamente, independente da vontade e do controle do indivíduo. É o cérebro quem se vicia. Portanto, é possível, sim, chegar ao fundo do poço. Para evitar este desfecho, a única garantia é não  arriscar! Portanto, deixe o seu cérebro se “viciar“ apenas em atividades saudáveis como esportes, cultura, música, viagens, amizades... Drogas, é possível ser feliz sem elas! 


quarta-feira, 11 de junho de 2014

O BEBÊ QUE NÃO DORME!


Hoje vou abordar um assunto que costuma ser motivo de aflição para os pais: O sono (ou a insônia) dos bebês. Algumas mães chegam ao consultório desesperadas, com olheiras e claros sinais de privação crônica de sono. Ao seu lado, a criança, que supostamente não dorme, está geralmente alerta, ativa e feliz! O desconhecimento sobre a fisiologia do sono na infância faz com que a insônia, na maioria das vezes, seja favorecida pelos próprios pais.  

                                                    
 O sono é uma função do encéfalo que também passa por um processo de desenvolvimento. No recém nascido ele ocorre aleatoriamente em períodos de 2 a 4 horas ao longo das 24 horas. O amadurecimento é rápido. Aos 6 meses o sono já possui quatro fases e está sincronizado ao ciclo dia e noite. Nesta época diminui também a necessidade biológica de se alimentar à noite, ou seja, aos 6 meses os lactentes já estão biologicamente preparados para dormir a noite toda sem comer! Só faltou escrever isto no manual de instruções dos bebês! Até um ano há ainda a necessidade de dois cochilos diurnos e até os 3 ou 4 anos, um cochilo. Algumas crianças continuam a dormir depois do almoço por hábito o que não é problema. No entanto, nenhuma criança deve ser forçada a dormir de dia após esta idade. Faltou também avisar isto às creches!
 A partir dos 3 a 4 meses o intervalo entre as mamadas deve ser aumentado progressivamente. É a manutenção da rotina de recém nascidos e a introdução de outros (maus) hábitos pelos pais que atrapalha a consolidação natural do sono. A criança passar a ter dificuldade para iniciar o sono, acorda várias vezes e tem que ser alimentada.  Faltou também escrever no manual dos bebes que despertares breves durante o sono são fisiológicos, todo ser humano tem. Não dá pra desligar a criança da tomada e só religar de manha. Ela vai acordar! Estes despertares são breves e geralmente não nos recordamos deles pela manhã. Com a presença da mãe, no entanto, a criança se tornará alerta... pra brincar! Bebes só entendem duas coisas: o que é ruim e o que é bom. Ganhar colo, mamadeira e brincar é bom demais! Então, voltar a dormir porque? Acordar, chorar e ser prontamente atendida se tornará uma rotina. A criança terá dificuldade para voltar a dormir na ausência das circunstâncias que foram condicionadas ao início do sono como: ser embalada no colo, dormir mamando no peito ou mamadeira, luz acesa, presença da mãe na cama, dormir vendo televisão e até mesmo passear de carro pra pegar no sono. E assim toda noite, várias vezes por noite...
 É a  insônia por associações inadequadas ao início do sono. 







A criança deve aprender a dormir sozinha em condições que possam ser facilmente reproduzidas nos despertares fisiológicos. Assim voltarão a dormir sozinhas se acordarem no meio da noite.  É bom fazer isto antes que elas aprendam a sair do berço! A partir daí, se não forem prontamente atendidas, irão para a cama dos pais. Estabelecer rotinas ficará muito mais difícil e elas passarão decidir quando e como vão dormir, sempre testando os limites dos pais.



A fome condicionada
Para os pais, o choro dos bebes é sinal de fome e assim a cada berro a comida virá rapidinho! Os despertares fisiológicos geralmente ocorrem a cada 2 horas, após cada ciclo das quatro fases do sono. Assim serão até cinco mamadeiras ou o peito noite adentro quando não existe mais a necessidade biológica. O excesso de oferta alterará a secreção de hormônios e enzimas digestivas gerando a “fome aprendida ou condicionada”. A fome é um sinal emitido pelo cérebro quando o organismo está preparado para receber a comida condicionada àquele horário. Não indica portanto, uma necessidade e ainda passará a despertar a criança. Comer a noite além de causar cáries, otites e obesidade, provoca cólicas e maior produção de urina aumentando o número de despertares e criando um ciclo vicioso impedindo a consolidação do sono.

É de conhecimento geral que o hormônio de crescimento é secretado na fase IV do sono e isto gera preocupação quanto a possível privação de sono. Se a criança está ativa, alerta e brinca normalmente o volume de sono deve estar adequado. A maior quantidade de sono fase IV ocorre nas primeiras horas de sono, quando elas parecem dormir que nem pedra, garantindo o crescimento! Prejuízo no crescimento só ocorre nos casos de distúrbios de sono mais graves como na apnéia obstrutiva do sono. Crianças não devem roncar ou respirar apenas pela boca! Fica o alerta! Outras condições que merecem atenção médica e que podem interferir com o sono são refluxo, asma e alergias alimentares.
As famosas cólicas são causadas por um desbalanço entre as concentrações de serotonina e melatonina nos primeiros três meses de vida. A serotonina causa contração da musculatura lisa e a melatonina causa relaxamento. As cólicas refletem um processo fisiológico normal de desenvolvimento. Seu término coincide com a época de início da consolidação do sono noturno. É importante descontinuar as condutas adotadas na fase das cólicas para não inviabilizar este processo. Se não houver interferência dos pais, os bons hábitos de sono costumam se desenvolver normalmente. É importante reforçar que os hábitos de sono são aprendidos e se uma criança passou meses ou anos com um padrão inadequado, levará algum tempo para reaprender um novo padrão. Apenas a persistência poderá resolver o problema. O uso de medicamentos raramente é necessário. 
 Querida mamãe, se sua consciência não permitir deixar seu filho chorar um pouco para aprender a dormir, pense: Você também precisa dormir. Uma mãe que dorme bem terá paciência, bom humor, criatividade para brincar e estimular seu filho com todo amor e carinho no dia seguinte. Portanto durmam bem, mães e filhos!

Outras dicas para que os pequenos durmam bem:

1.        A criança deve aprender a iniciar o sono sozinha. Diante do choro condicionado o ideal é deixa-la chorar ou não atende-la imediatamente num processo gradual. O atendimento deve ser monótono e sem atrativos, apenas a presença no quarto até que fiquem quietas. No máximo um balanço suave no próprio berço, sem pegá-la no colo. Sair do quarto para que inicie o sono sozinha. Em caso de novo choro e nos dias seguintes demorar cada vez mais para atendê-la. A criança geralmente aprende a dormir sozinha em uma semana.
2.        Dissociar a alimentação do início do sono. Amamentá-la em outro ambiente e não permitir que inicie o sono no peito. Colocá-la acordada no berço e usar a mesma tática nos cochilos diurnos.
3.    Rotinas de ir para a cama devem ser rigorosas. O quarto deve estar silencioso, com temperatura agradável e luz reduzida. Fornecer uma refeição leve ou mamada antes, para que não vá dormir com fome.
4.        O banho é geralmente uma atividade estimulante para os pré-escolares e deve ocorrer 2 horas antes do sono. O superaquecimento da criança pode atrasar o início do sono.
5.        Colocá-la para brincar no sol logo que acordar. O cochilo diurno por necessidade ou hábito deve ocorrer no início da tarde, durando aproximadamente uma hora e sob a luz natural, para diferenciá-lo do sono noturno, ajudando assim a sincronizar o relógio biológico ao ciclo noite e dia.
       6.       Para dormir é necessário estar com sono e para que ele ocorra na hora desejada é necessário fixar o horário de acordar. Manter aproximadamente o mesmo horário nos sete dias da semana.
7.        A necessidade de sono vai diminuindo com a idade. Verificar a média adequada à idade e considerar todos os cochilos diurnos no cálculo. Cochilos de 10 a 20 minutos no carrinho, podem reduzir o sono noturno em horas. Dormir no final da tarde pode adiar o início do sono noturno em até 6 horas.
8.        Exercícios vigorosos devem ser evitados 3 horas antes de deitar. Evitar bebidas cafeinadas após o almoço, incluindo refrigerantes e chocolate.
9.        Televisão, computador, vídeo game e excesso de luz são atividades excitantes e devem ser desligados uma hora antes de deitar.  Desenvolver uma seqüência padronizada de eventos para preparar o sono como arrumar o material, beber leite, pijama, escovar dentes, ler ou escutar uma história, apagar as luzes, beijinho e boa noite!
Dra. Lucia Machado Haertel - Neuropediatra CRM 6338
Clínica Neurosaúde - Blumenau 
(47) 3322 1522